Aquela árvore, ali, foi plantada por mim.
Abri um buraco fundo na terra, coloquei a raíz da pequena árvore lá dentro, mais, um palmo do tronco, depois tapei tudo...num gesto mecânico... sem prestar atenção a pormenores, ou a técnicas de cultivo.
É um chorão. Um salgueiro chorão. Uma árvore comum das margens do Tejo, na zona do Ribatejo.
Não possui um tronco forte... mas os ramos, com as suas folhas comprindas, pendem como uma cabeleira, chegando a tocaro chão.
Por vezes, meto-me debaixo do Chorão, com vontade de chorar. deixo-me envolver por aquela profusão de ramos que pendem até ao chão e que formam uma perfeita cortina, capaz de me separar do mundo, mantendo-me em simultâneo nele.
Não consigo chorar debaixo do meu chorão.
Aquela árvore sou eu; irrequieta, brincalhona. Uma pequena aragem é suficiente para a fazer vibrar, agitar, ganhar vida. Basta esse pequeno nada, para que o "meu" Chorão cresça, avolume, refulja. Então, saio debaixo dele, finjo-me zangado e atiro-lhe: não posso contar contigo para nada, que grande amigo me saíste.
Mais a baixo tenho uma figueira. Plantei-a ... está a fazer uns 5 anos. Desconheço a que "raça" pertence. Quem ma vendeu, afiançou-me que era "pingo de mel".
Mas,comprei-a porque ouvi a uma velha contar, o caso de um homem que morreu debaixo de uma figueira e em seguida, morreu a mulher, debaixo da mesma figueira.
Contou-me a velha que o homem, já cansado e doente, costumava sentar-se ao final da tarde, numa velha cadeira, encostada ao tronco da figueira. Certo dia, a mulher foi encontra-lo morto, sentado na velha cadeira, com um ar muito sereno.
Feito o funeral, a mulher passou a sentar-se na mesma cadeira, ao final do dia, sob a mesma figueira.
Poucos dias depois, encontraram-na morta, sentada na cadeira, com um ar muito sereno.
A superstição das gentes aqui dos montes, afirma que quem se sentar sob uma figueira, sofre da parte desta, uma sucção de vitalidade, acabando por falecer, omo que, or inanição.
Sinto que o objectivo do nosso governo, é o de nos enfraquecer e de nos fazer socumbir, exaurindo-nos,esgotando-nos com impostos e aumentos de custo dos bens essenciais.
Não compreendo, que o nosso governo tencione, ao menos, plantar meia-duzia de Salgueiros-chorões, sob os quais, protegidos pelas suas ramagens, possamos carpiar as nossas mágoas e em seguida, de alma aliviada, saltemos para fora, aregacemos as mangas e lutemos pelo futuro e pela prosparidade que desejamos.
Sinto que o nosso governo, tem dado espaço e premissão, para que sejam plantadas somente figueiras, milhares de figueiras, sob as quais nos iremos sentando, em velhas cadeiras, esperando pelo momento final da inanição-colectiva.
Pelo sim, pelo não, prefiro a minha figueira, porque, enquanto for morrendo, vou saboreando os pequenos mas saborosos figos "pingo-de-mel".
sábado, 30 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Pensamos que temos tudo, mas não temos nada...
Caminhava pela berma da estrada estreita, deserta. Amparava-se a um pau tosco, encardido. Obesa, quase andrajosa. Parou quando me aproximei e ficou parada a olhar enquanto passei. Parei logo a seguir, fiz marcha atrás, abri o vidro, não precisei de lhe oferecer boleia, passou imediatamente pela frente do carro, dirigindo-se à porta do passageiro.
-Vou só até ali à frente, ao café, sabe onde é?
-Sei; entre.
Entrou com imensa dificuldade, agarrando-se a tudo o que pudesse servir-lhe de travão ao desmoronamento daque corpo enorme. Primeiro de tudo, entrou o pau, a seguir a perna esquerda e com ela metade de um cu que mais parecia a anca de um animal de tracção. A restante perna, o resto do cu e o tranco onde avolumava um par de mamas que se confundia com o prolongamento do proeminente estômago, é que foram a parte mais difícil de entrar.
Quando já me preparava para saír do carro, com a intenção de empurrar aquela massa gelatinosa para o lugar do passageiro, num súbito solavanco, como rolha de garrafa de champanhe que se solta, mas ao contrário, lá entrou a totalidade daquele corpo imenso arfante, balôfo.
Nem lhe ordenei que colocasse o cinto de segurança, imaginei-o insuficiente para abarcar a totalidade do volume.
-É a coluna que me mata, sabe?! Foram muitos anos no duro, de manhã à noite, por esses campos fora, desde muito pequena. Levantava-me como primeiro cantar.
-Com o primeiro cantar? O que é isso?!
-Então, era quando o galo cantava pela primeira vez, sabe que naquele tempo, ha oitenta anos, aqui por estes sítios, ninguém tinha relógio nem despertador. Agente alevantava-se quer fosse de Verão ou de Inverno, com o primeiro cantar do galo; e depois lá íamos por esses caminhos fora até às quintas onde nos davam trabalho, a roer uma côdea de pão pelo caminho. Olhe que foram tempos muito difíceis... nem me quero lembrar, senhor, Jesus, Maria. Mas olhe, tudo se criou,e viveu-se com mais alegria. A gente nada tinha, mas eramos alegres, íamos o caminho todo a cantar e a contar anidotas. E hoje...(calou-se uns instantes) hoje, julgamos que temos muito e ainda temos menos.
-Então acha que esses tempos passados, foram melhores que os actuais?
- Olhe senhor, se hoje é melhor, não lhe posso dizer, aquilo que lhe digo é que já não ha alegria para nada.
Chegámos ao largo em frente ao café, parei o carro e perguntei-lhe se era ali que desejava ficar.
-É sim senhor, respondeu-me, venha beber um cafézinho que pago eu.
-Não senhora, muito obrigado (enquanto esperava que o corpanzil conseguisse mover-se, desta vez para fora do carro).
-Então e uma cerveja? venha daí, ao menos uma cervejinha.
-Agradeço-lhe, minha senhora, mas fica para outra altura, agora está na hora de ir almoçar.
-Então e o que é que tem? Venha lá beber a cerveja...
-Não vai, não vai... mas agradeço à mesma!
-Pronto, você é que sabe, mas olhe que é de boa-vontade.
E lá acabou por conseguir tirar a totalidade do corpo, fechar a porta do carro e agradecer de novo a boleia com um sorriso imenso e radioso.
-Vou só até ali à frente, ao café, sabe onde é?
-Sei; entre.
Entrou com imensa dificuldade, agarrando-se a tudo o que pudesse servir-lhe de travão ao desmoronamento daque corpo enorme. Primeiro de tudo, entrou o pau, a seguir a perna esquerda e com ela metade de um cu que mais parecia a anca de um animal de tracção. A restante perna, o resto do cu e o tranco onde avolumava um par de mamas que se confundia com o prolongamento do proeminente estômago, é que foram a parte mais difícil de entrar.
Quando já me preparava para saír do carro, com a intenção de empurrar aquela massa gelatinosa para o lugar do passageiro, num súbito solavanco, como rolha de garrafa de champanhe que se solta, mas ao contrário, lá entrou a totalidade daquele corpo imenso arfante, balôfo.
Nem lhe ordenei que colocasse o cinto de segurança, imaginei-o insuficiente para abarcar a totalidade do volume.
-É a coluna que me mata, sabe?! Foram muitos anos no duro, de manhã à noite, por esses campos fora, desde muito pequena. Levantava-me como primeiro cantar.
-Com o primeiro cantar? O que é isso?!
-Então, era quando o galo cantava pela primeira vez, sabe que naquele tempo, ha oitenta anos, aqui por estes sítios, ninguém tinha relógio nem despertador. Agente alevantava-se quer fosse de Verão ou de Inverno, com o primeiro cantar do galo; e depois lá íamos por esses caminhos fora até às quintas onde nos davam trabalho, a roer uma côdea de pão pelo caminho. Olhe que foram tempos muito difíceis... nem me quero lembrar, senhor, Jesus, Maria. Mas olhe, tudo se criou,e viveu-se com mais alegria. A gente nada tinha, mas eramos alegres, íamos o caminho todo a cantar e a contar anidotas. E hoje...(calou-se uns instantes) hoje, julgamos que temos muito e ainda temos menos.
-Então acha que esses tempos passados, foram melhores que os actuais?
- Olhe senhor, se hoje é melhor, não lhe posso dizer, aquilo que lhe digo é que já não ha alegria para nada.
Chegámos ao largo em frente ao café, parei o carro e perguntei-lhe se era ali que desejava ficar.
-É sim senhor, respondeu-me, venha beber um cafézinho que pago eu.
-Não senhora, muito obrigado (enquanto esperava que o corpanzil conseguisse mover-se, desta vez para fora do carro).
-Então e uma cerveja? venha daí, ao menos uma cervejinha.
-Agradeço-lhe, minha senhora, mas fica para outra altura, agora está na hora de ir almoçar.
-Então e o que é que tem? Venha lá beber a cerveja...
-Não vai, não vai... mas agradeço à mesma!
-Pronto, você é que sabe, mas olhe que é de boa-vontade.
E lá acabou por conseguir tirar a totalidade do corpo, fechar a porta do carro e agradecer de novo a boleia com um sorriso imenso e radioso.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
E eu, o que tenho para dizer? ...Népia!
Saramago, o escritor, disse:
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".
Essa coisa que somos e não tem nome, gera-se dentro de nós e raras vezes se manifesta plenamente, por forma a que, do exterior, possa ser inteiramente entendível, reconhecível.
Porque, muitas vezes, em várias situações, não nos bastam os olhos e a capacidade de ver, para nos permitirmos entender aquilo que vimos.
David Mourão Ferreira, disse: Possuímos 5 sentidos; dois pares e meio de asas, por isso talvez, voemos tão desequilibrados.
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".
Essa coisa que somos e não tem nome, gera-se dentro de nós e raras vezes se manifesta plenamente, por forma a que, do exterior, possa ser inteiramente entendível, reconhecível.
Porque, muitas vezes, em várias situações, não nos bastam os olhos e a capacidade de ver, para nos permitirmos entender aquilo que vimos.
David Mourão Ferreira, disse: Possuímos 5 sentidos; dois pares e meio de asas, por isso talvez, voemos tão desequilibrados.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Sem título...
Agarrei-a; por agarrar.
Sem sequer lhe olhar o rosto.
Sem tão pouco a desejar.
Nem lhe ter lido o desgosto,
Que a fazia chorar,
Que a tornava o mosto,
De um vinho a azedar.
Agarrei-a sem a ver.
Levei-a sem a sentir.
E ela... veio, sem ser.
E eu, comecei a a despir.
E ela, sempre a descer.
E sem nunca tentar fugir.
Depois; foi o grito profundo.
O repuxar dos lençois.
Foi o romper d'aquele mundo,
Que já não conhece mais sois.
Foi então quando a vi:
Numa alma ultrajada.
Foi ali que eu morri.
Entre espasmos de tesão.
E que a senti, já vingada,
De uma vida sem razão.
Sem sequer lhe olhar o rosto.
Sem tão pouco a desejar.
Nem lhe ter lido o desgosto,
Que a fazia chorar,
Que a tornava o mosto,
De um vinho a azedar.
Agarrei-a sem a ver.
Levei-a sem a sentir.
E ela... veio, sem ser.
E eu, comecei a a despir.
E ela, sempre a descer.
E sem nunca tentar fugir.
Depois; foi o grito profundo.
O repuxar dos lençois.
Foi o romper d'aquele mundo,
Que já não conhece mais sois.
Foi então quando a vi:
Numa alma ultrajada.
Foi ali que eu morri.
Entre espasmos de tesão.
E que a senti, já vingada,
De uma vida sem razão.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Lembras-te...?!
Lembras-te...?!
Costumo utilizar este termo interrogativo e simultâneamente afirmativo, com alguma frequência; quando converso com amigos ou familiares sensivelmente da mesma idade. Depois, nos meus momentos mais íntimos, naqueles em que troco comigo mesmo algumas reflexões, penso: Somos, desde que nascemos, um arquivo de memórias. Memórias que acumulamos e nos vão acompanhando ao longo do tempo em que possuímos consciência, em que possuímos razão... São sempre vozes que me guiam, que me dizem; vai em frente, ou então, volta atrás. Umas, audíveis, outras, não. Umas físicas, outras, somente adivinháveis. Mas todas elas, compositoras de um arquivo indimensionável, irreferenciável, capaz de se tornar acessível, de se escancarar, através de um simples som, fonético ou não, de uma simples imagem, de um cheiro ou odor, de um toque ou de um sabor. E ando... convencido por vezes, que cada passo me é ditado, desenhado, programado, por uma consciência individual, criada por mim, unicamente.
Mas não!
Eu, não sou Eu.
Nunca serei.
O que sou, é o resultado de gerações consecutivas de muitos outros. O que serei, é o cúmulo de todas as palavras, de todos os pensamentos, de todos os gestos, de todos os sonhos e conquistas, daqueles que já foram. Quando todos aqueles que se julgam comandantes dos destinos do Mundo e das Almas que o habitam entenderem, que tudo o que fazem, o que pensam e decidem, se subordina a uma ordem que os ultrapassa e obriga... então, compreenderão a liberdade.
Então, deporão o poder, a utopia, a malícia e a demagogia, banhar-se-hão nas nascentes das origens e compreenderão finalmente, o sentido da Universalidade.
Mas não!
Eu, não sou Eu.
Nunca serei.
O que sou, é o resultado de gerações consecutivas de muitos outros. O que serei, é o cúmulo de todas as palavras, de todos os pensamentos, de todos os gestos, de todos os sonhos e conquistas, daqueles que já foram. Quando todos aqueles que se julgam comandantes dos destinos do Mundo e das Almas que o habitam entenderem, que tudo o que fazem, o que pensam e decidem, se subordina a uma ordem que os ultrapassa e obriga... então, compreenderão a liberdade.
Então, deporão o poder, a utopia, a malícia e a demagogia, banhar-se-hão nas nascentes das origens e compreenderão finalmente, o sentido da Universalidade.
sábado, 28 de abril de 2012
Vai-te Embora...
Ha um Homem que caminha à minha frente, pela mesma estrada.
Separa-nos uma curta distância que apesar dos esforços, não consigo vencer.
Caminha à frente, escolhendo sempre os mesmos caminhos por onde sigo, e ainda não vi o seu rosto, não conheço o seu nome. Se o chamo, não me escuta.
Se me detenho, cansado, e me sento na beira do caminho, ele não para, continua a jornada mas, quando me levanto, ele aparece instantâneamente, à minha frente, sempre À mesma distância de mim, sempre voltado para frente, nunca, deixando que lhe conheça o rosto.
Veste como eu, caminha do mesmo modo, mas nunca se volta para trás. Noto que sabe sempre por onde passou e o que já viu... pois é transparente e, à transparência, consigo ver-lhe todos os registos dos nomes e imágens que já conheceu.
Caminha à minha frente, não fala, por vezes, quando o vento sopra de frente, julgo escutar um murmúrio, como que, uma melodia antiga... ha dias pareceu-me que trauteava uma velha lenga-lenga... vai-te embora papão negro, de cima desse telhado... deixa dormir o menino... um soninho descançado... vai-te embora...
terça-feira, 24 de abril de 2012
Á Noite
Aparece sempre que se começam a cerrar os nevoeiros nocturnos.
Chega sem se notar, silenciosa. Esquiva-se ao diálogo, olha, somente.
O lume crepita, estaladiço, lançando ondas cálidas de luz laranja-fogo.
Lentamente, ergue-se e desliza até mim, enrosca-se, penetra nos meus sonhos.
E eu... hmm, quase não me atrevo a tocar-lhe, arrisco um só beijo, levemente.
Velo a noite toda, guardo-lhe o sono, temo que se respirar, possa fazer com que termine este jogo.
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