sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Metáfora

Este poema, dedico-o à minha grande amiga Maria Eduarda, autora do blog andondehaespaco.blogspot.com, onde ela magistralmente vai desfiando aquilo que a alma lhe sente. Como vês Maria, o prometido não foi de vidro, se foi, era do bom, da Marinha Grande, feito ainda pelos arcaicos processos artesanais. "Nada melhor que o belíssimo produto nacional"
;))))

Hoje vi-te!
Como rio que se solta da barragem que lhe prende as águas.
E pegaste-me, envolvendo-me com toda a força do teu querer
Levaste-me leito abaixo, entre margens de desejo.
Despenhámo-nos em cascatas palpitantes, seguindo
Ora rápido, ora lentos, ora calmo, ora agitados,
Saltando de fraga em fraga, galgando por cima de penedos.
Buscando desenfreadamente a plácida foz, onde
Um mar imenso serenamente nos acolhe
E nos guarda, repousados, em seus segredos.
Quando sentires medo, chama por mim.

26 comentários:

Maria disse...

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

( Produto 100% nacional: ADORO!)

Maria Eduarda Horta disse...

Bolas! Até fico envergonhada. Dedicas-me um belo poema assim em público e logo depois vem a Maria com o mais belo poema de Eugénio de Andrade... Estou sem fôlego! Beijos.

lenor disse...

Gostei da imagem do fim: a Ariel e o Rei Tritão.
Um beijo para os dois.

Moura ao Luar disse...

Um grande viva à amizade

Maria disse...

Bartolomeu, conhece o trabalho da fadista Ana Moura?
É qualquer coisa de sublime...
As letras são incríveis a voz é deliciosa...
A minha favorita é VAGA NO AZUL AMPLO SOLTA..

Papoila disse...

HELP................ BartÔ

Eu sei que o recado do fim, quem te deveria chamar se tivesse medo, não era eu mas... tive vontade!

Está muito bonito. Palavras sentidas de verdadeiros sentires.

Beijinhos
BF

Fábula disse...

estrelei-te no meu blogue... =)

Bartolomeu disse...

Olá Maria!
Excelente gosto poético.
Eugénio de Andrade é também um dos poetas que aprecio bastante, muitas vezes genial.
Achas mesmo que "viver sempre tambem cansa"?
É que a alternativa, parece-me mais cansativa ainda, sempre deitado, sempre deitado... ad-eternum.
;))

Bartolomeu disse...

Maria Eduarda, é a primeira vez que duvido das tuas palavras.
Tu, envergonhada?
Mas pronto, se afirmas que ficas assim... eu... não acredito.
;)))

Bartolomeu disse...

Na tua história Leozinha, eu seria o Eric certamente, ou estás-me a dar o papel do pai da pequena sereia?

Bartolomeu disse...

Um grande viva Moura!!!!
Muito grande mesmo!!!

Bartolomeu disse...

Maria, não conheço de facto o trabalho dessa fadista, mas fui imediatamente buscar no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=Sa8Ucd96KWo&mode=related&search=) e declaro-me fascinado.
Belíssima voz, excelente interpretação, letras e músicas e... a Ana Moura é uma mulher linda.
Fico-te grato pela notícia.
;)))

Bartolomeu disse...

Vou precorrer incansávelmente os campos de papoilas até te encontrar.
Será sede que te faz gritar "Help"?
Ou será o frio da terra que te invade a raíz?

Bartolomeu disse...

Fabulosa Fábula, estragas-me com mimos e não sou merecedor de tanta atenção.
E agora?
Vou ter de comprar um quintal para colocar as estrelas todas.
Já agora dá-me uma dica, de que é que elas se alimentam? Precisam de ser desparasitadas?
Um beijão Fabulosa Fábula.

sombra e luz disse...

olá Bartolomeu, gostei tanto do seu comentário lá no meu sítio...

só para deixar um beijinho...

Bartolomeu disse...

Olha! Um beijinho...
e veio mesmo a calhar
apesar de pequenino
basta para me alegrar.

É da Sombrinha, eu sei
deixou-o aqui para mim
eu a ela nada lhe dei
mas ela deu-me um festim
;))))
Sou tão beijoqueirooooooo

sombra e luz disse...

;))))) seu beijoqueiroooooo...
...também para si...

Bartolomeu disse...

Beijoqueiro é apelido
que assenta em mim como luva
Um beijo é doce lindo
Refrescante como a a chuva

Aquece-me o coração
E dá-me tanta alegria
Como um sol de verão
Sempre que rompe o dia

Sombrinha, não me quero fazer "oferecido", mas sempre que tenhas por aí uns beijos que já não precises, lembra-te de mim.

sombra e luz disse...

...uns beijos que já não precise, não estou a ver...
todos já são poucos e cada um me faz muita falta...

mas espere... está outro a aparecer-me já aqui... tome, é-lhe oferecido, e mesmo sendo bem pequenino leva todo o meu carinho.

Bartolomeu disse...

Á grande felicidade na vida, consiste em cruzarmos com pessoas verdadeiramente generosas.
Ãgradeço e retribuo Sombrinha.

Maria Eduarda Horta disse...

Pois é Bartolomeu. Só acreditas na ficção não é? A verdade é que sou uma tímida... se me conheceres um dia hás-de perceber. O teatro foi a minha grande escola para a vida. Esse mesmo na terra que te viu crescer: o I Acto, lembras-te?

Maria disse...

Ainda bem que gostou de Ana Moura!!
Ela foi-me "apresentada" por um grande amigo e nunca mais deixei de A ouvir...

Maria disse...

Viver sempre também cansa

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira

(Consegui responder à sua questão?)

Bartolomeu disse...

Lembro sim Maria Eduarda, na primeira transversal à esquerda de quem sobe a Av. dos Combatentes da Grande Guerra, 2º prédio à direita.
Assisti a duas peças nesse teatro, não me perguntes quais porque vou ser-te muito sincero, fui atrás de uma miuda que andava a catrapiscar e nem dei porque estava dentro de um teatro (exagerooo).
Mas, a bem da verdade, nunca senti o apelo pelo teatro. Talvez porque nunca o tenha entendido. O meu raciocínio não processa convenientemente a acção de alguem estar a representar a vida de alguém, assim como não processa, na realidade alguém estar a querer que outro alguem acredite na sua irrealidade.
Bom, esquece Maria Eduarda, ha quem tenha certas limitações e esta é uma das minhas.

Bartolomeu disse...

E com todos os motivos para isso Maria, Ana Moura é realmente uma voz que nos cria o desejo de ser escutada.

Bartolomeu disse...

Maria, penso que sim.
Concluo, não sei se bem, que te serviste de uma anatomásia, para dar ao teu pensamento um sentido diferente daquele que na primeira leitura ele transmite.
Ou seja "Viver sempre também cansa" deve ser entendido como "Viver sempre do mesmo modo, também cansa"
Se não for este o sentido, faz-me 2 favores, desculpa a minha lerdice e dá-me a solução do enigma. A menos que te interesse conhecer a minha prespicácia e queiras manter o enigma, que provávelmente não chegará a ser um.
;))))