sábado, 14 de julho de 2007

Ne me quites pas

Madalena, chamava-se Madalena
Era bela, cheia de graça plena
Elegante, quase esguia, morena
Sorria sempre, luminosa, serena

Faz um ano, ou pouco mais, era um quase final de tarde de verão na praia do Baleal, ela chegou, radiante, luminosa, numa saínha de ganga e blusa branca, fina, com pequenas flores coloridas bordadas. Poisou o saco e estendeu a toalha dois passos à minha frente. Sem disfarçar, segui atentamente todos os seus gestos. Retirou a roupa e sentou-se na toalha enquanto espalhava o protector solar sobre o corpo. Mesmo em estado hipnótico, percebi que o seu olhar se cruzou com o meu e que os seus lábios esboçaram um leve sorriso. Por mais duas vezes os nossos olhares se encontraram e os nossos sorrisos também. Ocorreram-me ousados pensamentos, aproximar-me, apresentar-me, convida-la para uma bebida no bar da praia. Levantou-se, retirou os óculos escuros e dirigiu-se à água. Fiquei parado admirando o seu andar, as formas esbeltas do seu corpo, o contraste do tom de pele com as ramagens coloridas do bikini.
Vi-a entrar de mansinho na água fria e molhar o rosto, o peito, os braços. Decidi, vou também à água e tento conversar com ela. Nesse momento, mesmo à distância, os nossos olhares encontraram-se, fez-me um sinal com a mão. Senti o coração acelerar e a vontade de correr para junto dela. Levantei-me e caminhei do modo mais confiante que fui capaz. Ao chegar junto dela saíu-me... Olá Madalena. Olhou-me surpreendida - já nos conhecemos? Senti-me embaraçado e confirmei... não, penso que não. - Então como sabes o meu nome? O embaraço aumentou... efectivamente não sei, foi algo instintivo, algo me impeliu interiormente a chamar-te Madalena, mas, na verdade, não te conheço. Sorriu de novo, um sorriso afectuoso, carinhoso e tranquilizou-me. - Acredito em ti, e acertaste, chamo-me Madalena. Uma tontura súbita invadiu os meus sentidos, como era possível o que estava a acontecer? Madalena mergulhou, tinhamos água pela cintura, o mar estava sereno e eu admirei novamente o seu corpo ao meu lado, entrar de cabeça na água, fazendo um arco perfeito. Quando reapareceu um pouco mais à frente, sugeri... vamos nadar? Sorriu-se de novo e observou alegremente, não sei nadar, mas vou para onde fores. Hesitei e nesse momento, outro impulso interior oubrigou-me a soltar o corpo para a frente, enquanto Madalena a um braço de distância de mim, fazia o mesmo. Flutuámos, sentimos a impulsão da água nos nossos corpos, ganhámos a confiança plena e deslizámos suávemente à tona d'água. Saímos fora de pé, batemos os pés, as mãos, rápidamente sentimos que faziamos parte do equilíbrio terreno e universal, e rimos, rimos um para o outro, enquanto saíamos fora de pé.
Voltámos, trazidos pela maré
calmos, relaxados, satisfeitos
E quando voltámos a ter pé
relatámos um ao outro nossos feitos
Olhando-me nos olhos confessou-me,- afinal, pensei que não sabia nadar, mas tu ensinaste-me.
Eu confessei-lhe... eu não sabia nadar, mas tu, encorajaste-me.
Tinhamos os pés assentes na areia com a água pelo pescoço, Madalena aproximou-se, abraçou-me e encostou os seus lábios aos meus. De novo a vertigem e o parar súbito dos sons do mundo, somente o vai-e-vem suave do mar, embalando-nos, como berço. De olhos cerrados, senti o abraço de Madalena apertar com mais força, foi nesse momento que tomei consciência plena do sabor doce/salgado dos seus lábios. Foi nesse momento que ganhei consciência daquele abraço cósmico que nos unia de um modo tão pleno e imenso. Senti Madalena, suavemente baixar o meu calção e instintivamente as minhas mãos baixaram da sua cintura e retiraram o dela. Suspirou, os seus lábios sôfregos beijaram mais mansamente, o seu corpo envolveu o meu, colocando as pernas em redor da minha cintura. O tempo não existia, somente o vai-e-vem suave do mar e os gemidos suaves de Madalena me transmitiam a sensação de ainda estar vivo. Depois um abraço mais forte, um beijo mordido um estremecer interior e um quase desfalecimento de Madalena, enquanto me segredava, não saias de mim, fizeream-me crer mais ainda na magia cósmica. Ficámos assim, quietos, embalados suavemente pelo mar. Aos poucos, os sons da praia voltaram, o marulhar das ondas, o pio das gaivotas, o grito e o riso das crianças, uma outra vida diferenta daquela que nós vivemos, fez-se sentir. Voltámos a colocar os calções e de mão dada regressámos lentamente à praia. Ao chegarmos à areia, Madalena soltou a minha mão sem deixar de sorrir um sorriso ainda mais iluminado. Cheguei a minha toalha para junto dela. Conversámos sobre tudo, as bincadeiras da infÂncia, os gostos literários, desportos, até sobre os gostos gastronómicos. Quando a praia começou a ficar deserta, Madalena, reduziu a luminozidade do seu sorriso e declarou-me - tenho de ir embora. Perguntei-lhe se tinha transporte, respondeu que sim, prontifiquei-me para a acompanhar enquanto colocava de novo a sua saínha de ganga e a sua bluzinha branca, fina, bordada de florinhas coloridas. Saíu à minha frente, mantendo-se dois passos distante de mim. Ao chegar ao carro, colocou o saco e a toalha no banco do pendura, parando por momentos ao lado da porta. Aproximei-me, mostrei o desejo de a beijar de novo, não permitiu. Perguntei-lhe se poderia voltar a vê-la. Respondeu-me que era impossível, era casada. Entrou no seu carro e partiu, sem me olhar de novo. Como um autómato, voltei à praia, ao local onde Madalena tivera a sua toalha estendida e deitei-me, no sítio preciso onde ainda se notavam as marcas do seu corpo. Acho que chorei, tenho a certeza que adormeci. Fui acordado pelo abanão de um polícia marítimo, começava a escurecer. -Você está bem? perguntou ele. Bem? Estar vivo é o mesmo que estar bem? - Vá lá, não pode ficar a dormir aqui, tem de saír. Levantei-me, peguei na toalha e fiquei a olhar o lugar na areia onde Madalena estivera deitada. O polícia voltou. - Então? Perdeu alguma coisa? Perdi sim! - O quê?
Um tesouro, um amor!
Entrei no carro e dirigi-me para casa. Ao chegar, coloquei no leitor de CD's Jacques Brel e dançámos e chorámos e gritámos vezes sem conta, pela noite dentro, até o sono nos vencer...
Ne me quites pas... Ne me quites pas... Ne me quites pas!

16 comentários:

Papoila disse...

Fiquei sem fôlego...
O amor é assim. Dá forças para atingir o impossível e deixa-nos de rastos, de cara na areia, quando se vai...

Adorei
Beijos
BF

Papoila disse...

Não te posso ainda deixar... porque me esqueci de dizer que:
O meu ficar sem fôlego é consequência da falta de ar devido à asma... :) :)
Espero que não tenhas pensado que tenha sido pelo erotismo encoberto, a navegar! :) :)

Beijos
BF

Bartolomeu disse...

Claro, claro Papoilinha, falta de ar é terrível, se for acompanhada de falta de fôlego, pior ainda, a menos que haja alguem por perto com jeito para o boca-a-boca.
Todavia, podes ficar descansada, sei perfeitamente guardar um segredo.
:)))) **

lenor disse...

Se esta fosse comigo, juro que perdia o medo de abrir os olhos debaixo de água. E depois que se lixasse se me ficassem a arder. Havia de botar uns pinguinhos.

Bartolomeu disse...

Sabes que a áqua aumenta o tamanho dos "objectos", não sabes Leozinha?
E depois?
Como era?
Com o espanto abrias muito a boca e lá se verificava uma deminuição no nível da água do mar.
hahahahaha
Um beijáço Leozinha

Gaja Boa 2 disse...

Bela história! Gostei de te lêr! Sabes cativar...
Pena ela ser casada? Ou pena apenas de não ter deixado contacto?
bjs

Bartolomeu disse...

Pois foi gaja, é a velha história, "quando a esmola é grande..."
bejocations :)

Luisa Oliveira disse...

Talvez ela fosse uma espécie de "Pequena Sereia" que não se conseguiu transformar. Talvez seja a versão real da história.

^^

Bartolomeu disse...

Muito provávelmente seria, Luisa.
É necessário mantermos o espírito e o interesse abertos ao conhecimento de todas as hipoteses possíveis. Só assim se chega a conhecer aquilo que se desconhece.
:)) **

Maria Eduarda Horta disse...

Madalena foi pro mar/ e eu fiquei a ver navios...

Bartolomeu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bartolomeu disse...

Maria Eduarda, só fica a ver navios, quem chega ao cais e hesita em embarcar.
Ha que ser atrevido e embarcar sempre, a aventura estimula os sentidos, e depois... se o barco se afundar e não houver salva-vidas... que se lixe, vamos ao fundo, sempre se tem o ensejo de conhecer os mágicos reinos de Neptuno.
:))))
Um beijo... daqueles... à cinema.

Maria disse...

Lindíssimo este teu texto........
Envolvente, sensual, intenso.....

Gostei, muito!

Bartolomeu disse...

Olá Maria, talvez aquela força indomável do mar, conceda ás histórias que se relacionam com ele, algum encanto...
E ha que ter em conta um aspecto, a accção sucede numa praia quase de fronte à tua "ilha"!
:))

Marrie disse...

Estremecida estou por estas palavras.... adoro essa música tanto q coloquei a sua tradução em meu blog. Desculpa a invasão... curiosidade q me levou a uma grande sensação pelo texto q aqui expôs!

Prazer conhêce-lo...

Bartolomeu disse...

O prazer é meu Marrie... e de Jackes Brel, por ter uma admiradora... assim.
:))