quinta-feira, 18 de abril de 2013

Dia de sol

Ondeia a erva verde em redor, como um mar.
Fá-la a força do vento, ondear.
Aqui e ali polvilha-se de flores brancas, amarelas e lilás.
E eu, despregar delas os meus olhos, não sou capaz.

Foram as bastantes chuvas e últimos sois
E foi a acção concertada dos dois
E foi a terra e foi o ar
Que lhes deram toda a força e todo o amor que há para dar.

Erva viçosa, brilhante, bem vivaz
Encanta-me, faz-me sentir ainda rapaz.
Convida-me insistentemente a rebolar,
A correr a rir e a saltar.

E penso, cismo e reflicto
Num único, importante e simples acto.
O de o Homem querer evoluir
Deixando o melhor, dele, fugir.

terça-feira, 12 de março de 2013

Do nevoeiro que nos traga...

Pode causar-nos arrepios, ver um homem emergir do nevoeiro.
Constrange-nos, ver um homem imergir no nevoeiro e não termos o poder de "o" dissipar.

segunda-feira, 11 de março de 2013

tabuADA



Uma vêz um... hummm?
Não nos dá jeito algum.
Já basta o cinco contra um.
Quando estamos em jejum.

Uma vêz dois, conheceram-se.
Ele levou-a a jantar.
Beijaram-se ao luar,
E a meio da noite, comeram-se.

Uma vêz três, pegaram-se à porrada.
Foi por uma triste coincidência,
Andarem com a mesma namorada,
Numa total indecência.

Uma vêz quatro, seis.
Se lhe juntarmos mais dois.
Mas esta é uma das leis,
Que transforma os homens, em bois.

Uma vêz cinco, formigas,
Construiram um formigueiro.
Mas não foram em cantigas.
Nem chamaram o carreiro.

Uma vêz seis, viu o sete.
E apaixonou-se por ele.
A seis, chamava-se Odete.
O sete, chamava-se Manele

Uma vêz sete, meninas,
Filhas de boas famílias
Abriram demais as perninhas.
Inflamaram-se-lhes as virilhas.

Uma vêz oito, cinco.
Se lhe tirarmos os três.
Mas com isto, eu não brinco.
Já me tramei uma vêz.

Uma vêz nove, cabrões
Vieram para me assaltar
A um, pontapeei-lhe os colhões,
Dos outros, pus-me a cavar.

domingo, 10 de março de 2013

Nada

Como bom seria: de tudo, saber nada, e de nada querer saber.
Acordar todos os dias, com a luz do Sol ao nascer.
Beber a àgua das fontes, colher os frutos das árvores,
Correr por vales e montes, alimentar-me de amores.
E de tudo não saber nada, por nada de tudo me bastar.
E por  nada me saciar, e nada já possuir, nada desejar ter.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Verbo dar

Dá-me os teus lábios, para eu beijar.
Os teus seios, para eu chupar.
O teu corpo, para nele navegar.
O teu sexo, para eu te amar.

Mas não me dês a tua alma.
Nem sequer o teu coração.
Leva-me para a tua cama.
Acalma-me esta paixão.

E eu, nada te darei.
Só beijos e o meu suor.
Porque de mim já não sei.
De mim já não sou Senhor.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

E eu sei lá?!

Apoquenta-me há algum tempo, uma dúvida que penso enquadrar-se simultâneamente, num contexto existencial e profissional.
É uma dúvida para a qual não encontro uma explicação ou uma justificação que me pareçam minimamente razoáveis.
Sou, desde a idade dos 17 anos, empregado do Estado. Vulgo, Funcionário Público.
Quando iniciei as funções no Estado, existia a preocupação ética e moral   de aproveitar com seriedade e sentido da "coisa pública" os dinheiros do Orçamento do Estado.
Neste propósito, todo o dinheiro que era gasto pelos diferentes serviços públicos, destinava-se ou tinha como objectivo, acrescentar maisvalias directas ou indirectas para a sociedade. Existia nessa época, a noção precisa de que, o dinheiro utilizado pelos serviços do Estado, não aparecia debaixo das pedras, mas sim, nascia dos impostos pagos por todos, deduzido ao esforço do seu trabalho.
Hoje, por mais voltas que dê à imaginação e ao raciocínio, acho-me cada vez mais, parte de uma máquina diabolicamente gastadora desses mesmos recursos que, actualmente são mais escassos, dia para dia.
Na tentativa de encontrar um fio condutor que me pudesse ajudar a compreender minimamente, ou em último caso, aceitar a situação que dá origem às dúvidas que referi, decidi contactar uma profissional do sexo.
Procurei anúncios e liguei.
No primeiro contacto fui atendido por uma jovem com sotaque brasileiro; voz amável e atenciosa.
Perguntei-lhe se era profissional do sexo.
Respondeu-me que sim, que fazia tudo sem tabus.
Esta resposta transmitiu-me alguma confiança e fez-me sentir até um início de cumplicidade.
Em seguida perguntei-lhe há quanto tempo desempenhava a profissão.
Depois de uma breve pausa, respondeu-me também com uma pergunta: Que me interessava saber há quanto tempo?!
Respondi-lhe: Bom, se você é uma profissional, tem uma carreira, um percurso que corresponderá a um determinado período de tempo, durante esse tempo, adquiriu certamente experiência, "know how", "Skills".
Nesta altura, não querendo mostrar-me antipático e tendo notado uma certa relutância da parte da minha interlocutora, na resposta, acrescentei: esteja à vontade, não se sinta inibida; olhe, vou confessar-lhe, desde o início da nossa conversa que comecei a sentir alguma empatia consigo. Sabe, no decorrer da minha carreira profissional, notei diferenças em várias ocasiões. Notei que com o passar do tempo ganhei mais confiança em mim próprio e até, que essa confiança e a certeza de não errar que ela me conferia, levaram-me a ultrapassar alguns limites que a própria profissão impõe, abrindo espaço para algum arrojo e criação de novos métodos, os quais eram muito apreciados pelos meus superiores. Acho que até certo ponto, ajudei a criar novas perspectivas e novos métodos que vieram a revelar-se úteis para o meu trabalho e para o trabalho dos meus colegas.
Como durante o tempo em que desenvolvi este discurso, a minha interlocutora se manteve silenciosa, perguntei: está lá?
Após mais alguns momentos de silêncio, ouvi de novo a sua voz: - Olha cara, me fala uma coisa: você também é puta como eu?!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Pequenos gigantes

Como é que sendo nós seres tão frágeis e dependentes, susceptíveis a sofrer os maiores males e as maiores dores a cada momento; incapazes de os prever, antecipar e alterar, sucumbir sob o seu efeito; num momento, crescemos, agigantamo-nos e concebemos obras grandiosas, praticamos feitos impensáveis, que julgávamos impossíveis de realizar conquistamos espaços inatingíveis e ultrapassamos metas inalcançáveis?!
Será que ultimamente, o Espírito Santo se tem "esquecido" um pouco de nós?
Ou, por ventura, somos hoje menos merecedores de receber a graça de um simples e leve roçagar da asa da pomba branca sobre as nossas cabeças?!