sábado, 26 de janeiro de 2008

Bartolomeu, já te lixaste

Depois de colocar a indumentária que tinha sido escolhida para mim, olhei-me no enorme espelho colocado ao canto do quarto, do lado da janela.
Aquelas roupas davam-me um certo ar cómico, nunca me tinha visto enfiado dentro de semelhante trajo. Olhei para Jarbas, que se mantinha espectante a um lado e perguntei-lhe - Qual é a tua opinião Jarbas, parece-te que com este fato vou impressionar o cavalo?
Parece-me muitíssimo bem excelência, respondeu-me Jarbas.
Coloquei-me em frente ao mordomo, cruzei os braços, olhei-o de frente e com um tom de voz decidido disse-lhe: Ouve uma coisa Jarbas, vamos acabar de vez com toda esta palhaçada a que não estou a achar a mínima graça. Dizes-me se faz favor onde estou, quem são estas pessoas, o que estou aqui a fazer e... por favor, para com essa treta de me tratares por excelência. Ok?
Mantendo o olhar fixo no meu, Jarbas respondeu - V. Exª está na residência da Excelsa Senhora Marquesa D. Amélia e é convidado de honra da Senhora Marquesa.
Foda-se Jarbas... já me estás a tirar do sério, não consegues ser mais claro e explícito?
Sem me responder, Jarbas dirigiu-se à porta do quarto, abrindo-a e anunciando - A Senhora D. Amélia aguarda Vossa Excelência na sala da biblioteca.
Eu ainda me passo caráças, ai passo, passo, já estou a perder a paciência com esta merda toda, vamos lá ter com a marquesa, que eu quero pôr isto tudo em pratos limpos.
Jarbas conduziu-me de novo por diferentes corredores, até chegarmos em frente a uma enorme porta que jarbas abriu, dando-me passagem.
Entrei de rompante, exasperado e, perante o meu olhar, deparou-se um enorme salão, cujas paredes se apresentavam integralmente cobertas por ricas estantes em madeira exótica, repletas de encadernações de aspecto antiquíssimo. No centro do salão, dois enormes cadeirões, estofados a veludo grenat, sobre uma imensa carpete persa, ao lado de cada cadeirão uma luz de leitura, na parede do fundo, uma lareira onde crepitava um ténue fogo.
De pé, ao lado de um dos cadeirões, Amélia esperava-me.
Recebeu-me com um sorriso, um sorrijo que já me era familiar e que produzia em mim efeitos encantantórios.
-Bem vindo Bartolomeu, vejo que aceitaste o meu convite para passear a cavalo, vou mostrar-te a nossa propriedade.
- Nossa? Perdão Amélia, eu nem sei onde me encontro, ou sequer com quem estou e, gostava imenso que me esclarecesses acerca disso.
Amélia apróximou-se mantendo o seu sorriso adorável e enigmático, retorquindo -Porquê essa irritação toda Bartolomeu? Não estás a ser bem recebido na nossa casa? A minha companhia não te é agradável? Ha algo que te esteja a desagradar?
-Nada disso Amélia, simplesmente encontro-me num local que desconheço, acompanhado por pessoas que tambem não conheço e acontecem coisas que ultrapassam o meu entendimento, gostava bastante que me esclarecesses de tudo isto.
Améli voltou-se e em passo lento voltou para junto do sofá onde se encontrava quando cheguei, sem se voltar, respondeu-me - Lembras-te bartolomeu da noite em que nos conhecemos?
Sim, lembro-me perfeitamente, respondi-lhe.
-Lembras-te que nessa noite formulaste mentalmente um desejo?
-Ahhhh... lembro... mas, esse desejo, como dizes, não foi mais que mental, não o mencionei a ninguem.
-Para além de mental, foi formulado Bartolomeu, o bastante para que uma entidade tenha decidido satisfazêr-to.
Ri-me, um riso nervoso que tentava afastar maus pressentimentos, dirigindo-me de novo a Amélia, tentando brincar com a situação ripostei.
- Seria muito engraçado se as coisas funcionassem desse modo Amélia, um fulano formulava um desejo e plim plim plim, tudo acontecia num passe de mágica.
Amélia fingiu ignorar a minha brincadeira e continuou.
- Lembras-te ainda que me ofereceste ajuda nessa noite e que te disponibilizaste para me transportar a casa?
- Sim também me recordo.
- E recordas-te ainda que aceitaste deliberadamente o meu convite para permanecer nesta casa.
- Bom, o convite que me fizeste nessa dia, entendi-o com carácter não definitivo e, como uma cortezia da tua parte por te ter prestado auxílio.
- Bom, na verdade Bartolomeu, foste tu que pediste auxílio, no momento em que formulaste o teu desejo.
- Lembraste ainda de quando, após nos beijármos a primeira vez e ainda antes de fazermos amor eu te declarei que irias ser meu para sempre e tu selaste esse acordo, beijando-me com toda a tua alma? Nesse momento, entregaste-te a mim incondicionalmente e para sempre!
-Irra Marquesa, eu não fiz acordo algum, tudo não passou de um momento, até concordo que me senti apaixonado, que efectivamente senti dentro de mim um impulso, uma atracção imensa por ti, mas nunca pensei em algo para sempre.
Amélia, voltou-se de novo para mim, exibindo ainda no rosto aquele seu sorriso marivilhosamente encantantório e calmamente respondeu-me.
- Vamos então dar o nosso passeio?

12 comentários:

José M. Barbosa disse...

Belíssimo texto.

Z.

vicissitude disse...

interessante.

vicissitude disse...

"jarbas"..

Sirk disse...

Eu topei logo desde o primeiro instante que a tipa era uma tarada.

Dê de froskes, Bart, antes que seja tarde. Credo!, as possessívas são do pior.

:S

Deus me livre!

:D

Bartolomeu disse...

Vamos ver José, se esta bela, não transporta consigo um senão...
;)))
Agradeço o seu comentário!

Bartolomeu disse...

Intressante é a vicissitude viciosa de se chamar irremediávelmente Jarbas a todos aqueles que desempenham a nobre arte da mordomia.
;)))
Agradeço-lhe o vício!!!

Bartolomeu disse...

Tarada, é uma coisa, possessiva, outra, diâmetralmente oposta... declaro aqui e agora, solenemente a minha predilecção pelas primeiras, mesmo que tenha de me submeter às segundas (faz de conta)
Não fujo nada Sirkinha, lá sou gajo de fugir seja ao que for?
Népias, prá frente é que é (não desdenhando obviamente uma sedutora traseira). Agora vou dar luta à marquesa até que o cavalinho tombe de ladecos.
;)))))

lenor disse...

Vou já, já, ler o que escreveste a seguir que estou mortinha por saber se impressionaste o cavalo.

Rosa dos Ventos disse...

E sabes andar a cavalo?!
Então foste eleito por teres essa competência...

Bartolomeu disse...

Sabes Leozinha, acho que aquele cavalo, não se deixa impressionar pelo rabo de um qualquer Bartolomeu. Deve ser por ser de raça... equídea...
;)))))))))))))

Bartolomeu disse...

Não sei andar a cavalo Rosinha. A única competência que possuo, é de os montar, esses predicados de andar, estão reservados para os malabaristas do circo, eu, limito-me a monta-los e não a todos.
;)))))))

Papoila disse...

Tu tens uma escrita louca Bartô...
Estou a rir a te ler... como sempre.
Mas diz cá à madrinha, esta coisa do desejo se transformar! Não terás andado a ler e agora a praticar "O Segredo"?!!!!!!!!!

Jinhos
BF