O burro do Ti Xico comeu-me os marmelos todos.
Não eram muitos, não passariam de uma dúzia, mas estavam lindos e eram os primeiros que a árvore produzia desde que há 2 anos a plantei.
-Não é burro! É macho espanhol, afirma o Ti Xico pela enésima vez, colocando algum ênfase na frase. Eu, para o arreliar, refiro-me sempre ao Gaspar, designando-o por burro.
-Você não vê que um burro é mais pequeno...?!
-Para mim é burro, Ti Xico. Tem aspecto de burro... se é maior ou não, não sei. É burro!
-Ah!!! É macho! É filho de burro com égua, por isso não é burro...
Quando ontem ao fim do dia me dirigi ao pomar, para regar as árvores, topei com o Gaspar lá ao fundo a tasquinhar os últimos marmelos.
-Ah malvado! Salta daí, burro maluco! Seu sacana, comeste-me os marmelos todos...
O Gaspar espetou as orelhas, esticou as beiçolas, e mandou dois ou três zurros, que me deixaram sem perceber muito bem, se me estava a agradecer, ou a mandar bugiar.
Quando cheguei mais perto, percebi que se tinha soltado da corda com que o Ti Xico o prende a uma estaca e então, decidira provar os meus marmelos.
Passada a zanga e depois de voltar a prender o Gaspar no sítio, lembrei-me de uma certa tarde de verão; teria uns doze anos e ajudava uma vizinha dois anos mais velha, repetente, a preparar-se para os exames de segunda chamada.
Rosa, vinha quase todos as tardes a minha casa, para rever a matéria dada durante o ano lectivo e tentar esclarecer dúvidas. Ficávamos numa pequena sala de costura, que dava para as traseiras da casa, sentados a uma mesa redonda, onde com enfado, a Rosa estendia livros e cadernos e ficava especada a olhar para mim, esperando pelo milagre de uma injecção de sabedoria.
Eu, tentava "espremer" da miúda as dificuldades que sentia, para tentar explicar-lhe aquilo que necessitava saber para passar nos exames.
Rosa, passava o tempo a divergir para conversas que nada tinham a ver com a matéria e que não colhiam minimamente o meu interesse.
Naquela tarde, apareceu de saia azul e blusa branca.
Vinha diferente.
Parecia que transportava uma luz, um brilho, algo que me provocou uma sensação de nervosismo e que não consegui perceber muito bem.
Sentou-se à minha frente como de costume. Poisou os livros e os cadernos sobre a mesa e ficou a olhar-me de frente, com um leve sorriso a bailar-lhe nos lábios.
Notei que tinha dois botões da blusa branca, desabotoados. Notei que sob o tecido semi-transparente da blusa, dois pontos rosados, faziam o tecido levantar.
Petrifiquei o olhar naqueles pontos.
Os sentidos em alvoroço e uma atrapalhação indescritível, assaltaram-me. Como que sob um efeito hipnótico, o olhar fixo nos rosados mamilos de Rosa, condicionava-me o raciocínio.
Sem proferir uma palavra e sem desviar o seu olhar do meu, Rosa, pegou-me na mão direita e colocou-a sobre o seu seio direito.
-Mexe! disse ela baixinho, mantendo sempre o mesmo sorriso e o olhar fixo no meu.
Não mexi. Toquei ao de leve, o suficiente para sentir a maciez da pele, a rijeza do mamilo, o calor da carne.
Rosa, colocou então a sua mão sobre a minha e exerceu alguma pressão. Tentei retirar a minha, mas Rosa segurou-a e conduziu-a até ao outro seio, igualmente macio, rijo e quente, semi-cerrando os olhos e soltando um leve gemido.
Senti o rosto afogueado, invadiu-me uma sensação de embriaguez, algo que nunca tinha sentido até ali. Sobre as calças, elevou-se um feroz desejo de algo que não sabia identificar mas que me impelia a abraçar e beijar Rosa.
Assim foi, mas dali não passou.
Rosa, recolhendo os livros e cadernos, levantou-se de um salto e anunciou que se tinha esquecido de um compromisso, que tinha de ir embora.
Saiu.
A natureza cumpriu a sua parte!
Alguém inventou o ditado: "O primeiro milho é dos pardais". Esqueceu-se de acrescentar: "Os primeiros marmelos são do burro".
Ai... do burro não. Do macho espanhol!
;))))))
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
A distância e o tempo
Sempre acho, que o ponto de onde observamos, pode condicionar a forma como entendemos.
Ou seja; se nos encontrarmos num determinado ponto de uma fila de gente, com a finalidade de chegarmos a outro ponto, que poderá ser a bilheteira de um teatro, por exemplo; difícilmente teremos a percepção da distância a que nos encontramos desse ponto, ou, e, do número de pessoas que se encontram entre nós e o ponto que desejamos atingir.
Contudo, se tivermos a possibilidade de nos encarrapicharmos às cavalitas de alguém, dependendo da extensão da fila onde nos encontramos, poderemos percepcionar um pouco melhor a referida distância.
Mas; imaginemos que nos encontramos numa cidade e que a fila onde nos encontramos se estende ao longo de várias artérias, que viram à esquerda e à direita...
Então, para podermos ter a tal percepção, precisaríamos de um ponto de observação mais elevado, que os costados do parceiro da frente. Talvez de um terraço de um edifício, ou do alto de uma torre, a nossa visão pudesse abarcar toda a extensão da fila em que nos encontramos.
Mas; imaginemos que a fila onde nos encontramos, se prolonga por diversos países e continentes...
Então, seria necessário dispormos de um ponto de observação tão alto e tão distante, que nos permitisse abarcar toda a extensão dessa fila.
No entanto, o facto de conhecermos a verdadeira distância que separa o ponto que ocupamos na fila, do ponto que pretendemos atingir, não nos permite alterar a distância, nem o tempo que demoraremos a atingi-lo.
;))
Ou seja; se nos encontrarmos num determinado ponto de uma fila de gente, com a finalidade de chegarmos a outro ponto, que poderá ser a bilheteira de um teatro, por exemplo; difícilmente teremos a percepção da distância a que nos encontramos desse ponto, ou, e, do número de pessoas que se encontram entre nós e o ponto que desejamos atingir.
Contudo, se tivermos a possibilidade de nos encarrapicharmos às cavalitas de alguém, dependendo da extensão da fila onde nos encontramos, poderemos percepcionar um pouco melhor a referida distância.
Mas; imaginemos que nos encontramos numa cidade e que a fila onde nos encontramos se estende ao longo de várias artérias, que viram à esquerda e à direita...
Então, para podermos ter a tal percepção, precisaríamos de um ponto de observação mais elevado, que os costados do parceiro da frente. Talvez de um terraço de um edifício, ou do alto de uma torre, a nossa visão pudesse abarcar toda a extensão da fila em que nos encontramos.
Mas; imaginemos que a fila onde nos encontramos, se prolonga por diversos países e continentes...
Então, seria necessário dispormos de um ponto de observação tão alto e tão distante, que nos permitisse abarcar toda a extensão dessa fila.
No entanto, o facto de conhecermos a verdadeira distância que separa o ponto que ocupamos na fila, do ponto que pretendemos atingir, não nos permite alterar a distância, nem o tempo que demoraremos a atingi-lo.
;))
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
O Sôre Isidro morreu...
A uma amiga morreu um alpercheiro que tinha plantado há quase vinte anos. Uma doença estranha e subita, secou-o ramo após ramo até ao tronco e à raiz. Apesar dos esforços empregues, a minha amiga não conseguiu salvar o alpercheiro. A minha amiga acha que a morte do alpercheiro pode ser o prenúncio daquilo que virá a acontecer na União Europeia que, tal como o alpercheiro, possui alguns ramos que evidenciam sinais de doença grave, que os esforços de alguns parecem insuficientes para conseguir debelar.
Hoje, apareceu-me o meu vizinho Manel.
Vinha cabisbaixo, acabrunhado.
-Então sô Manel, que tal vai a vida?!
-Vai indo...
Eu, andava de volta de uns pinheiros que plantei em Novembro passado, a limpar-lhe as covas que já se tinham enchido de ervas.
-Tenho de limpar isto sô Manel, senão, um dia destes há mais ervas que pinheiros-
-Sabes quem morreu?
O Sô Manel tem o habito de tratar toda a gente por tu, diz ele que, uma vez que somos todos irmãos uns dos outros, não há motivos para tratar uns por senhores e outros por doutores ou engenheiros, ou outra coisa qualquer...
Acho que ele tem toda a razão, mas não me habituo a trata-lo assim, apesar da insistência dele: -Trata-me por tu, pá!
-Não faço ideia, quem foi?
-O Isidro, sabes quem é?!
-Sei muito bem, era ele que me enxertava as árvores.
-Era o melhor a enxertar! Olha que chegaram a vir cá buscá-lo de carro, para ir enxertar para fora, chegou a ir para o Alentejo e lá para cima, para a Guarda e para Viseu... e para mais lados.
O sô Manel não tirava os olhos do chão enquanto ia falando e recordando o amigo Isidro. Notei a tristeza que lhe enchia o coração.
- O Sô Isidro já devia ter idade, não?!
-Somos da mesma idade, fomos às sortes no mesmo dia. Foi a primeira vez que estive em Lisboa.
Nesta altura, os olhos do Sô Manel ganharam algum ânimo. Depois, levantando a cabeça e olhando para longe, lembrou um episódio, quando tinham ambos 16 anos e se lembraram de ir com uns sacos, ao cair da noite, apanhar à sorrelfa, uns melões de um vizinho, que lhes apareceu de caçadeira em punho, quando já tinham os sacos meio cheios, fazendo-os largar os sacos e correr com quantas pernas tinham, que até parecia que as duas não chegavam.
A história ainda o fez rir um pouco, mas logo a seguir, esmoreceu e de novo a melancolia tomou-lhe conta do olhar.
-Mas estava doente? perguntei...
-Nã... morreu de tristeza. A mulher tinha morrido vai fazer três anos e agora os filhos queriam metê-lo num lar. Quando lhe entraram em casa, encontraram-no morto, deitado na cama, ninguém sabe ao certo de que morreu, cá para mim foi de tristeza.
-A gente tem de morrer de alguma coisa Sô Manel, olhe, tristeza pode ser um mal como outro qualquer.
Lembrei-me da minha amiga e do alpercheiro, que provavelmente, terá morrido também de tristeza...
Hoje, apareceu-me o meu vizinho Manel.
Vinha cabisbaixo, acabrunhado.
-Então sô Manel, que tal vai a vida?!
-Vai indo...
Eu, andava de volta de uns pinheiros que plantei em Novembro passado, a limpar-lhe as covas que já se tinham enchido de ervas.
-Tenho de limpar isto sô Manel, senão, um dia destes há mais ervas que pinheiros-
-Sabes quem morreu?
O Sô Manel tem o habito de tratar toda a gente por tu, diz ele que, uma vez que somos todos irmãos uns dos outros, não há motivos para tratar uns por senhores e outros por doutores ou engenheiros, ou outra coisa qualquer...
Acho que ele tem toda a razão, mas não me habituo a trata-lo assim, apesar da insistência dele: -Trata-me por tu, pá!
-Não faço ideia, quem foi?
-O Isidro, sabes quem é?!
-Sei muito bem, era ele que me enxertava as árvores.
-Era o melhor a enxertar! Olha que chegaram a vir cá buscá-lo de carro, para ir enxertar para fora, chegou a ir para o Alentejo e lá para cima, para a Guarda e para Viseu... e para mais lados.
O sô Manel não tirava os olhos do chão enquanto ia falando e recordando o amigo Isidro. Notei a tristeza que lhe enchia o coração.
- O Sô Isidro já devia ter idade, não?!
-Somos da mesma idade, fomos às sortes no mesmo dia. Foi a primeira vez que estive em Lisboa.
Nesta altura, os olhos do Sô Manel ganharam algum ânimo. Depois, levantando a cabeça e olhando para longe, lembrou um episódio, quando tinham ambos 16 anos e se lembraram de ir com uns sacos, ao cair da noite, apanhar à sorrelfa, uns melões de um vizinho, que lhes apareceu de caçadeira em punho, quando já tinham os sacos meio cheios, fazendo-os largar os sacos e correr com quantas pernas tinham, que até parecia que as duas não chegavam.
A história ainda o fez rir um pouco, mas logo a seguir, esmoreceu e de novo a melancolia tomou-lhe conta do olhar.
-Mas estava doente? perguntei...
-Nã... morreu de tristeza. A mulher tinha morrido vai fazer três anos e agora os filhos queriam metê-lo num lar. Quando lhe entraram em casa, encontraram-no morto, deitado na cama, ninguém sabe ao certo de que morreu, cá para mim foi de tristeza.
-A gente tem de morrer de alguma coisa Sô Manel, olhe, tristeza pode ser um mal como outro qualquer.
Lembrei-me da minha amiga e do alpercheiro, que provavelmente, terá morrido também de tristeza...
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
O Vento
Há muitos anos conheci em Sesimbra, um Homem e um barco.
Do Homem, esqueci o nome pelo qual era conhecido. Do barco, recordo-me ainda do nome. Era "O Vento".
O Homem tinha já passado os 90 anos de idade. Baixo, seco, ágil, cabelos brancos, olhar vivo, e um interesse sem tamanho, por tudo o que o rodeava. Vivia dentro do seu barco, que é como quem diz; vivia dentro do vento.
Estabelecemos laços de amizade, eu, o Homem e o Vento.
Um dia, contou-me que aquele barco era o culminar do sonho de uma vida. Desenhara-o e construíra-o num estaleiro perto de Vila Nova de Mil Fontes. O casco, todo em madeira, possuía linhas esguias e harmoniosas, a cabine era baixa e exígua, sem mais comodidades que as suficientes para lhe albergar o corpo franzino.
O Homem, contou-me que construíra "O Vento" com um propósito final... o de ser a sua última morada. Tinha decidido que quando sentisse chegar o final, sairia n'O Vento, oceano dentro e afundar-se-iam juntos.
Antes de me fazer esta confidência, olhou-me fixamente nos olhos e pediu-me que guardasse o segredo que iria confiar-me, porque a família não conhecia o seu paradeiro, e sabia que se fosse encontrado, seria impedido de realizar o seu sonho.
Lembro-me de ter passado uns dias e umas noites inquieto, sem saber ao certo que decisão tomar. Se por um lado aprovava e apoiava a decisão do Homem, por outro, a consciência alertava-me para a aflição em que os filhos e restante família andariam, por não saberem dele.
Entretanto, durante os últimos dias que ainda estive de férias, acompanhei o Homem em pequenas viagens ao longo da costa.
"O Vento" era um barco lindo, ligeiro, facílimo de manobrar, uma espécie de "escuna" em ponto pequeno.
O Homem tinha criado um sistema inédito que lhe permitia, através de um conjunto de roldanas, içar-se ao topo do mastro, sentado numa pequena prancha idêntica ao banco de um baloiço de crianças, e dali, usando cordas, manobrar a direcção do barco e a posição das velas.
Era impressionante assistir à satisfação do Homem, quando içado no topo do mastro, concentrado na direcção do vento, olhos postos no horizonte, conduzindo o seu sonho, cortando vagas, virando de bordo, bolinando e arribando, como um cavaleiro cruzado, adestrando a sua montada, preparando-se para a derradeira batalha.
Dois dias antes de terminar as férias, apareceu em Sesimbra, um fotógrafo e um jornalista do "Correio da Manhã". Alguém os tinha alertado para a presença daquele Homem e daquele barco, que era manobrado de uma forma estranha.
Na sua simplicidade e inocência, o Homem recebeu-os a bordo e concedeu-lhes a entrevista que lhe pediram, demonstrando a forma de manejo que concebera. Esqueceu-se no entanto que o jornal chegava a muitos sítios, inclusive... a Vila Nova de Mil Fontes, onde a família do Homem residia e o procurava.
Quando voltei a Sesimbra, soube que a família do Homem o encontrou e o recolheu.
A "O Vento" vim a encontra-lo alguns anos depois, na doca de Belém, em cima da muralha, assente numa armação de madeira, parado.
O Homem, não existe já, certamente. Talvez os seus ossos repousem, num qualquer cemitério da costa alentejana.
Mas os sonhos e o vento permanecem!
Do Homem, esqueci o nome pelo qual era conhecido. Do barco, recordo-me ainda do nome. Era "O Vento".
O Homem tinha já passado os 90 anos de idade. Baixo, seco, ágil, cabelos brancos, olhar vivo, e um interesse sem tamanho, por tudo o que o rodeava. Vivia dentro do seu barco, que é como quem diz; vivia dentro do vento.
Estabelecemos laços de amizade, eu, o Homem e o Vento.
Um dia, contou-me que aquele barco era o culminar do sonho de uma vida. Desenhara-o e construíra-o num estaleiro perto de Vila Nova de Mil Fontes. O casco, todo em madeira, possuía linhas esguias e harmoniosas, a cabine era baixa e exígua, sem mais comodidades que as suficientes para lhe albergar o corpo franzino.
O Homem, contou-me que construíra "O Vento" com um propósito final... o de ser a sua última morada. Tinha decidido que quando sentisse chegar o final, sairia n'O Vento, oceano dentro e afundar-se-iam juntos.
Antes de me fazer esta confidência, olhou-me fixamente nos olhos e pediu-me que guardasse o segredo que iria confiar-me, porque a família não conhecia o seu paradeiro, e sabia que se fosse encontrado, seria impedido de realizar o seu sonho.
Lembro-me de ter passado uns dias e umas noites inquieto, sem saber ao certo que decisão tomar. Se por um lado aprovava e apoiava a decisão do Homem, por outro, a consciência alertava-me para a aflição em que os filhos e restante família andariam, por não saberem dele.
Entretanto, durante os últimos dias que ainda estive de férias, acompanhei o Homem em pequenas viagens ao longo da costa.
"O Vento" era um barco lindo, ligeiro, facílimo de manobrar, uma espécie de "escuna" em ponto pequeno.
O Homem tinha criado um sistema inédito que lhe permitia, através de um conjunto de roldanas, içar-se ao topo do mastro, sentado numa pequena prancha idêntica ao banco de um baloiço de crianças, e dali, usando cordas, manobrar a direcção do barco e a posição das velas.
Era impressionante assistir à satisfação do Homem, quando içado no topo do mastro, concentrado na direcção do vento, olhos postos no horizonte, conduzindo o seu sonho, cortando vagas, virando de bordo, bolinando e arribando, como um cavaleiro cruzado, adestrando a sua montada, preparando-se para a derradeira batalha.
Dois dias antes de terminar as férias, apareceu em Sesimbra, um fotógrafo e um jornalista do "Correio da Manhã". Alguém os tinha alertado para a presença daquele Homem e daquele barco, que era manobrado de uma forma estranha.
Na sua simplicidade e inocência, o Homem recebeu-os a bordo e concedeu-lhes a entrevista que lhe pediram, demonstrando a forma de manejo que concebera. Esqueceu-se no entanto que o jornal chegava a muitos sítios, inclusive... a Vila Nova de Mil Fontes, onde a família do Homem residia e o procurava.
Quando voltei a Sesimbra, soube que a família do Homem o encontrou e o recolheu.
A "O Vento" vim a encontra-lo alguns anos depois, na doca de Belém, em cima da muralha, assente numa armação de madeira, parado.
O Homem, não existe já, certamente. Talvez os seus ossos repousem, num qualquer cemitério da costa alentejana.
Mas os sonhos e o vento permanecem!
sábado, 16 de julho de 2011
Insaciabilidade(s)
«A insaciabilidade dos desejos humanos obriga a dar voltas que não conduzem a outro lugar que não ao ponto de partida.»
Penso que o sentido, ou os sentidos desta frase, podem ser aplicados a diferentes situações em diversos contextos.
A frase termina com uma afirmação, que para o ser, obriga a que não seja considerado somente o ponto de partida, mas também, o ponto que se pretende, seja o ponto de chegada.
No entanto, o ponto de chegada é indeterminável. Indeterminável por diversas razões; porque se não consegue divisar, porque se não consegue idealizar e ainda, porque é impossível de concretizar. Mesmo depois de supostamente atingido, esse ponto de chegada, continua por atingir, porque se mantem em permanente construcção, em permanente actualização, em permanente "crescimento".
Então, poderei resumir que o ponto de chegada é o Homem, e que o ponto de partida, é o homem... ao caminho que intervala entre o homem e o Homem, poderemos chamar "a insaciabilidade dos desejos"...?
A administração do blog ceita sugestões e, ou, reflexões.
Rejeita conclusões.
Penso que o sentido, ou os sentidos desta frase, podem ser aplicados a diferentes situações em diversos contextos.
A frase termina com uma afirmação, que para o ser, obriga a que não seja considerado somente o ponto de partida, mas também, o ponto que se pretende, seja o ponto de chegada.
No entanto, o ponto de chegada é indeterminável. Indeterminável por diversas razões; porque se não consegue divisar, porque se não consegue idealizar e ainda, porque é impossível de concretizar. Mesmo depois de supostamente atingido, esse ponto de chegada, continua por atingir, porque se mantem em permanente construcção, em permanente actualização, em permanente "crescimento".
Então, poderei resumir que o ponto de chegada é o Homem, e que o ponto de partida, é o homem... ao caminho que intervala entre o homem e o Homem, poderemos chamar "a insaciabilidade dos desejos"...?
A administração do blog ceita sugestões e, ou, reflexões.
Rejeita conclusões.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
À conversa com Ricardo Reis
«Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive»
Para ser grande, sê iconoclasta: nada
Que não seja a vida, te basta.
Sê em cada coisa símbolo de ti . Porque
Em cada coisa eu te vi.
Assim, serás eternamente tu, em ti.
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive»
Para ser grande, sê iconoclasta: nada
Que não seja a vida, te basta.
Sê em cada coisa símbolo de ti . Porque
Em cada coisa eu te vi.
Assim, serás eternamente tu, em ti.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Os Freixos e o Mundo
Encontrei hoje muito cedo (para mim), o meu vizinho Manuel do Freixo.
Vinha pela estrada poeirente, de enxada ao ombro, corpo vergado, mais pela tristeza que pelo cançasso. Parei e saí do carro para o cumprimentar.
-Então sô Manel, que tal a vida ?
-Cá se vai vizinho (e nem mais uma palavra).
Cogitei com os meus botões; será que o sô Manel está doente, ou com algum problema a afligi-lo?
-Isso não me parece lá muito bem sô Manel, parece-me que você vai meio aborrecido...
-Na senhor... coisas da vida...
-Mas está alguem doente?
-Na senhor, felizmente cá se vai andando da forma que Deus quer...
Mudei de assunto e perguntei-lhe pela agricultura. Que lá ía tudo da forma que Deus manda o tempo, que se não piorasse, assim estaria muito bem. O sô Manel do Freixo, é uma pessoa muito faladora e sempre com um sorriso franco e enorme a bailar-lhe nos lábios e nos olhos. Desconfio, pelos olhos claros e um certo ar, que será ainda descendente de algum militar das tropas de Massena que premaneceram acantonadas por estas bandas, no tempo das últimas invasões francesas. Talvez trineto de alguma moçoila trigueira e de um desertor do exército francês que no meio da trapalhada da retirada, se tenha esquecido de voltar às fileiras e de quem as fileiras se tenham esquecido.
Na verdade, incomodava-me o recolhimento a que o meu vizinho e amigo, Manuel do Freixo se estava a remeter e não o dispensei da conversa sem voltar a insistir que o achava estranho, muito diferente daquilo a que estava habituado a reconhecer nele.
Depois de mais uns minutos de conversa, o meu amigo Manuel lá começou a desenovelar o problema que o afligia.
- Sabe vizinho?! É que o meu compadre, cada vez que vem cá a casa, atenta-me o juízo, a mim e à mulher, para irmos passar uns dias à casa dele em Lisboa. Ê tenho-lhe dito sempre que nã senhor que tenho aqui munto que fazer na agricultura e que tenho os animais que precisam de ser tratados todos os dias e amais... o que é que vou fazer lá pra casa dele?
Mas tanto ele como a mulher, estão sempre a insistir ca gente pra irmos, pra irmos ver aquilo e as ruas e assim. Tanto insistiram que gente acabámos por pedir a uma vizinha para nos tratar da bicharada e lá fomos, para passar uma semana na casa deles.
-Então ó sô Manel, mas também faz bem mudar de ares e ver coisas diferentes...
-Pois faz vizinho, mas olhe; primeiro, fui-me meter dentro de um andar com gente por cima e por baixo, depois, como aquilo do elevador me faz munta confusão (à minha não faz confusão nenhuma, quela pela-se para andar para cima e para baixo dentro daquilo - olhe caté para ir pró carro, vão no elevador) logo no primeiro dia sobi pelas escadas e ás tantas já não sabia onde estava, nem dava com a saída, disse mal da minha vida. Depois lá apareceu uma mulher que é a porteira, toda cheia de maus modos a perguntar-me o que é que andava ali a fazer. Olhe vizinho, já tava tão xateado que só me apeteceu manda-la aquela parte...
E mais, à nôte, quando já távamos deitados, comecei a ouvir o barulho de água a correr, pensei que alguém tivesse deixado uma torneira aberta e levantei-me, fui ver à casa de banho, nada, fui à cozinha, nada, voltei-me a deitar e a água sempre a correr. Levantei-me outra vez e fui batar à porta do quarto dos mês compadres, quando o compadre me apareceu disse-lhe, olhe que vocemecê tem uma torneira da casa de banho aberta quê tou a ouvir a água a correr. Respondeu-me que não me preocupasse, que era a vizinha de cima a tomar banho.
Diga-me lá vizinho... então a vizinha da outra casa está a tomar banho e a gente ouve como se fosse ali ao pé de nós?
-Pois, é assim em muitos casos sô Manel, nos prédios isso é frequente acontecer.
-Mas ainda o pior, sabe, foi no dia seguinte... eles têm o habito de salevantar pró tarde e eu, alevanto-me sempre cedo, e assim que acordo tenho de me levantar, ir á casa de banho, comer e saír. Assim que me levantei comecei a pensar... quando abrir a torneira da água, vou acordar a casa toda... olhe, até mijei encolhido para não fazer barulho. Depois disse à minha; não vou ficar mais tempo em casa dos compadres, tu se quiseres fica, mas eu vou prá nossa casa, lá é queu me sinto bem. A minha desatou logo num pranto, que ía parecer mal, o que é que os compadres íam dizer, que íam levar a mal concerteza. Olhe vizinho, com tanto pranto e tanta confusão, vesti-me, desci as escadas e vim para a rua, para apanhar ar. Pus-me a andar por ali fora para me distrair e a páginas tantas já não sabia onde é que estava, para cada lado que me virava parecia-me que era tudo igual. Agora é que isto está bonito, pensei cá para mim, como é que vou dar outra vez com a casa dos compadres? Depois lembrei-me de entrar num café e perguntar se alguém conhecia o meu compadre pelo nome. Olhe, aquilo pareciam todos uma vara de porcos a olhar de nariz no ar, nem que sim, nem que não, olhavam para mim como um boi a olhar para um palácio.
Andei naqueles preparos mais de três horas, metia por uma rua, depois por outra, depois por outra e nada de dar com a casa dos mês compadres. Já estava a pensar chamar um carro de praça para me trazer prá minha casa quando apareceram os meus compadres e a minha, todos muito aflitos, a perguntar dondé queu me tinha metido, o que é que andava a fazer ali e sei lá mais o quê. Olhe vizinho, virei-me para eles e só lhes disse; ou vão-me levar já á minha casa, ou então apanho um carro de praça e vou sózinho.
Vamos lá a ter calma, disse o meu compadre. Vamos para casa que está na hora do almoço e depois isso logo se resolve. E lá fomos, almoçamos e depois os compadres levaram-nos a dar um passeio pela Capital, andámos a ver uns largos grandes com umas estátuas de reis e uns jardins também muito grandes e bonitos, até quase à hora do jantar. O problema, foi depois, quando voltámos a casa e ele enfiou o carro num buraco por baixo do prédio e para sair dali, teve de ser outra vez de elevador. Olhe vizinho, deu-se-me um aperto no peito e uma zoeira na cabeça, queu voltei-me prós compadres e disse-lhes, vocês desculpem mas eu não aguento viver aqui mais tempo, tenho de voltar para a minha terra e para a minha casa, para os meus animais e para a minha horta e conversar com os meus amigos, isto aqui não é para mim.
E pronto, depois de jantar, vieram trazer-nos a casa, contra a vontade da minha, mas ê não aguentava estar lá nem mais um minuto.
Ri-me, mas compreendi a angústia do meu amigo Manel do Freixo, um homem que nasceu no monte e tem passado a vida toda na completa liberdade e harmonia com a natureza e os elementos.
-Vá sô Manel, isso agora já tudo passou, já não vale a pena andar aborrecido, vai ver que os seus compadres perceberam que a cidade é para uns e o campo para outros.
-Pois é vizinho... só que a minha ainda anda de trombas...
-Isso passa-lhe, vai ver...
-Que remédio senão passar-lhe... a mim, é que não voltam a apanhar lá por Lisboa!
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