domingo, 26 de junho de 2011

Os Homens são todos iguais...!

Conheço dois homens da mesma idade (80 anos)mas, de condição diferente. Um, conheço-o à menos tempo, é uma pessoa simples do campo, analfabeto. Ao outro, conheço-o desde criança, é médico, académico, intelectual. Tenho-os a ambos em muita consideração, são ambos muito bons, sempre prontos a ajudar o próximo e a partilhar conhecimento. O rural, possui terras, animais, árvores de fruto, vegetais e, um conhecimento do tempo, da terra e das coisas simples, impressionante. O outro, dedicou a vida à profissão e com ela, acumulou fortuna à que já possuía de herança. Possui bens materiais e um conhecimento imenso de medicina e de outras ciências.
Chegaram ambos a um ponto do percurso das suas vidas em que o fim natural pressentem estar próximo.
O rural, quando conversamos, conta-me com saudade os tempos difíceis em que pouco ou nada possuía, para além da fome e da certeza que se não conseguisse trabalhar para os grandes agrários, difícilmente teria uma refeição. Com a mesma saudade, um brilho intenso no olhar e um sorriso maroto a bailar-lhe nos lábios, recorda as romarias e os bailaricos dos tempos de juventude, quando pedia uma bicicleta emprestada a um vizinho, percorria 40 kms por estradas de terra, para ir a um bailarico, e voltava já noite avançada, com "o grãozinho na asa" e uma satisfação a encher-lhe o peito até mais não, por haver dançado 2 ou 3 modinhas com uma rapariga trigueira que já andava a catrapiscar desde o ano passado, quando a vira na feira anual acompanhada dos pais.
O médico, quando conversamos, conta-me com saudade os tempos de faculdade, em Coimbra. Depois, salta para a Guiné, onde já médico cumpriu o serviço militar. Tempos horríveis, recorda com sofrimento e angustia. Quando o primeiro filho nasceu, já se encontrava no meio daquele inferno. Depois, anima-se-lhe um pouco o olhar, quando recorda o início de carreira, já regressado do ultramar, os sucessos nos casos difíceis, as operações complicadas, os congressos onde perante colegas estrangeiros, expunha novos processos de tratamento com que obtivera sucessos. Foi, pode dizer-se uma estrela. Durante anos, deslocou-se semanalmente ao Porto, sua Terra Natal, para consultar e operar gratuitamente os mais necessitados. Um santo!... como muitos acharam que lhe deviam chamar.
Conheço dois homens da mesma idade (80 anos)mas, de condição diferente...
Não vivem muito longe, um do outro. Muitas vezes penso: se um acaso juntar no mesmo local estes dois Homens que conheço, e partirem desta vida no mesmo instante... será que o rural vai emprestar um pouco da alegria e do brilho do seu olhar, ao médico, àquele homem triste que a tantas vidas deu alento, saúde, felicidade?
Estou certo que sim, merece-o sem dúvida!

sábado, 18 de junho de 2011

Basta-me um cordel!

Pouco passava das 6 horas da manhã, fui acordado pelo ruído ao longe, de uma máquina agrícola.
Parece-me uma enfardadeira, pensei...
Enfardadeira, é uma máquina que atrelada a um tractor, percorre o campo que antes esteve semeado com um cereal, o qual foi previamente ceifado, debulhado e ajuntado e o compacta num bloco paralelipipédico a que vulgarmente se dá a designação de fardo de palha.
Levantei-me após algumas espreguiçadelas, desjejuei e saí para o campo. O ruído ritmado da enfardadeira continuava a chegar-me, trazido pelo vento.
A minha curiosidade, levou-me a seguir no sentido de onde me chegava o som da enfardadeira. Após ter transposto 2 cabeços, lá estava. Num terreno plano, máquina e homem, completavam uma tarefa que tem perdurado ao longo dos anos. Continuei a percorrer os campos até chegar ao local. Era o terreno do Manel Zacarias.
-Bom dia patrão, lançou-me ele.
-Bom dia sô Manel, retribui.
-Então anda a passear?
-É verdade sô Manel, ouvi a máquina e vim até aqui... precisa de ajuda?
Riu-se e respondeu-me; Então se quer, pegue aí nessa forquilha e ajude a ajuntar a palha, sabe que isto como está, não se pode perder nada. E este ano como há mais, o preço vai baixar... No aproveitar é que está o ganho!
Eis uma boa lição de economia, pensei... "no aproveitar é que está o ganho"... e é tanto aquilo que desaproveitamos, queixando-nos em seguida, que o dinheiro não chega para nada, que está tudo caríssimo, etc. etc.
Depois de enfardar, foi preciso empilhar os fardos. O processo obedece a uma regra: Os fardos são colocados uns em cima dos outros, aos pares, mas entre eles, tem de ficar um espaço aberto, por forma a que o ar circule livremente e a palha não corra o risco de apodrecer.
Eu de um lado e o sô Manel do outro, lá fomos pegando e empilhando os fardos, formando torres de 4 andares.
É fantástico como o trabalho em equipe pode ser gratificante, apesar de duro. Passado pouco tempo, entre conversa e dicas que o sô Manel me foi oferecendo, em troca da força que lhe fui oferecendo, notei que já havíamos empilhado duzentos e tal fardos.
Era meio-dia, hora que dita a obrigatoriedade de abandonar o trabalho e chegar-se à mesa. O corpo tem religiosamente de ser alimentado, afirma o sô Manel.
E eu, entre risadas, devolvo-lhe; pois... e eu tenho de ir pôr um cinto, esqueci-me, e tenho passado a manhã a puxar as calças para cima.
O sô Manel, depois de uma enorme gargalhada, tira um cordel do bolso e diz-me: Ó homem, já podia ter dito, "andamaí com as calças na mão há um ror de tempo sem necessidade"... tome lá este cordel e ate as calças com ele... olhe que a pior coisa que pode acontecer a um homem, é andar com as calças na mão.
E ria-se "que nem um perdido" enquanto me explicava a forma simples de segurar as calças com um pedaço de cordel!
Despedimo-nos, disse-me que agora a palha ía ficar enfardada, na terra, até aparecer comprador, se não aparecesse ninguém, voltava lá com o tractor e guardava tudo no palheiro.
Voltei para casa, depois de dar um forte aperto de mão ao sô Manel, que me agradeceu a ajuda, quando era eu que lhe devia pela conversa e pelo trabalho que me proporcionou.
Quando voltava a casa, atravessando de novo os mesmos campos, reflectia nas palavras do sô Manel «a pior coisa que pode acontecer a um homem, é andar com as calças na mão».
Efectivamente... não há nada pior para um homem... e afinal, a solução para que não se ande com as calças na mão, reside num simples cordel... um cordel que serve para atar, para segurar, para unir, para criar cumplicidade e sustentabilidade.
Muito obrigado sô Manel... pelo cordel que me ofereceu!

sábado, 7 de maio de 2011

O Homem e o Mundo

O Homem não se cansa de contemplar o céu, a terra, a água e o fogo... o Homem não se cansa de se contemplar a si mesmo.
http://www.youtube.com/watch?v=-rCd5uGaM8s&feature=fvst

domingo, 1 de maio de 2011

Mãe!

Mãe...
Ser de Saber
De verdade e
De bondade
Concebeste-me
Geraste-me
Alimentaste-me
Deste-me o Ser
Ensinaste-me o Mundo
E a ganhar a liberdade.
Amo-te, Mãe!
Acima de tudo,
Sei que me amas.
Que darias a vida por mim.
Que me dedicas, todos os dias da tua Vida!
No entanto, eu dedico-te, somente...
Um dia por ano, da minha vida...
Amo-te Mãe!
;)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Terra-Mãe

Transporta-me a ti um vento forte
Sussurra-me teu nome, a brisa morna
De ti, nunca me separará a morte
A ti, todo o meu ser agora torna

Depende de ti, toda a existência
De ti nasce a seiva que me percorre
De ti, nunca eu sinto a ausência
Em ti, tudo nasce, se cria e morre

És imensa, protectora e forte
Dás. Ralhas. Castigas e amas
Em ti se joga, da vida a sorte
Por ti se empunham e disparam armas

Por ti, corro a defender
Aquilo que nos dás a todos, igual
Aquilo que alguns querem vender
Aquilo que é, património mundial

Utópicos, loucos, queremos possuir,
Comprando partes do teu corpo amado
Esquecendo o prazer que é, fruir
Dos prazeres que colocas ao nosso lado

Mas tu, jovem anciã, lá vais rodando,
Indiferente, às nossas tolas vaidades
Oferecendo-nos o caminho e embalando
Os sonhos com que construímos realidades

sábado, 23 de abril de 2011

Coisas dea minha Terra III

Por vezes acontece ficarmos em silêncio.
Ele, no seu ar sempre estático, como que a dizer-me: estou aqui, porque nunca daqui saí.
Eu, hesitante, questiono-me intimamente se aquilo que ele conhece, confrontado com o que eu conheço, corresponde de alguma forma a uma qualquer realidade.
É estranho, a forma persistente como nos preocupamos em encontrar, em identificar a realidade, uma realidade, algo que caiba sem hipótese de discussão, dentro de um padrão tido como irrefutável.
Estávamos assim, eu e o meu moinho há um par de horas, olhando ambos o horizonte mas, vendo realidades diferentes, quando ele me diz peremptório: o tempo vai mudar.
Hmmm?!
O tempo vai mudar, repetiu-me.
Ah sim? Tens a certeza?
Absoluta!
Talvez me pudesses desvendar a fórmula que te permite chegar a essa conclusão...
Fácil, basta que repares na mudança da direcção do vento. Há pouco soprava de sul, agora rondou para noroeste. Quando soprava de sul, puxava a chuva, agora, começa a afastar as nuvens mais grossas. Se continuar a rondar no mesmo sentido, vamos ter sol em pouco tempo... sol e vento. Adoro o vento, lembra-me os tempos áureos em que o moleiro aqui vinha, alinhava-me de acordo com a direcção do vento, soltava-me as velas e os meus mastros começavam a rodar, impulsionando as mos que transformavam o grão em farinha e farelo.
Sabes Bartolomeu, poucas pessoas dão valor ao farelo, muitos, consideram-no até um produto sem valor, algo a desconsiderar. No entanto, era com ele que se engordava o gado; o porco, a galinha, etc. que eram a base da subsistência de todo esse povo que cavava a terra e que dela retirava o sustento e... a riqueza dos grandes proprietários.
É verdade meu amigo, respondi-lhe. Mas então, dizes que os ventos são de mudança... queres dizer que é lícito manter-se a esperança de que tudo mude, pelo menos, que algo mude, que o sol volte a brilhar?
O vento já mudou muitíssimas vezes, Bartolomeu. Aquilo que ainda não mudou, foi a forma que os homens encontram para aproveitar esses ventos, para tirar partido desses ventos, do mesmo modo que o moleiro o aproveita, transformando o grão em farinha que alimenta a alma e o farelo que engorda a carne. Entender o mundo, passa também pela forma como se vê e entende o nosso semelhante e ainda... pela vontade de construir conjuntamente, de aproveitar a força individual e transforma-la numa força comum, indomável, capaz de se sobrepor aos ventos nefastos, capaz de conduzir a humanidade, de a tornar próspera e sobretudo, consciente.
Adoro o silêncio do meu moinho!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Poema

... de Pedro Homem de Mello

"Povo"

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!