quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sou... somos

Sou... um sobreiro solitário
enraizado na secura da planície
À minha volta, o torrão gregário
Que se soltou da terra, canície

Esse torrão desagregado
Como eu, solitário companheiro
Persistente desterrado
D'este deserto, marinheiro

Sou... a sombra rotativa
Que acolhe o sol à volta
Sempre achada, prestativa
Em grandes mistérios envolta

E tu... quem és?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Existências

Se existem flores,
selvagens
Armadas de espinhos,
mansos
Se existem rios,
sem margens
Se existem amores,
descansos
Porque suporto as dores
Porque tremo junto às margens
Porque não me aqueço nos frios
E de te olhar não me canso?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Onde ?

Devoto do vento
Cavaleiro alado
Liberto do tempo
Eterno,incomeçado

Em esferas armilares
Buscando as razões
Caminhos estrelares
Entre constelações

Lutando pela vida
Ignoto dos tempos
Perdendo a corrida
Que destroi os mais lentos

Já sem paixão
De alma quebrada
Arrastando pelo chão
A lança cansada

Sobre um penedo..
No topo do mundo
Olhando sem medo
O futuro...profundo

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

as patas do c...

Um certo toureiro da nossa praça, que já conhecera altos momentos de glória, começou inexplicávelmente a ter más actuações. A crítica, implacável, apontáva-lhe impiedosa diversos defeitos, os quais seriam a causa dos últimos insucessos.
Um dia, ao terminar mais uma actuação sem grande valor reconhecido, foi abordado por um jornalista "expert" em matéria de tauromaquia.
O jornalista abordou de imediato o tema das fracas actuações, sugerindo que o toureiro avançasse uma explicação para o facto, mas antes de obter uma resposta, adiantou logo uma observação pessoal: «será que o facto de o seu cavalo coxear, pode ser o motivo de uma lide tão fraca ?»
-Sim, realmente o cavalo está ligeiramente côxo de uma pata, mas manqueia das outras cinco!
A resposta foi alvo de chacota durante algum tempo, no meio taurino.
Passado algum tempo este cavaleiro retirou-se das praças e dos espectáculos, dedicando-se exclusivamente à ganadaria e à criação e treino de cavalos.
Numa outra entrevista a outro toureiro de renome, o mesmo jornalista, feliz pelo sucesso que obtivera relembrou sarcásticamente e com muito ênfase o caso do cavaleiro passado.
Este que estava a ser entrevistado na altura e em directo, deixou-o exuberar à vontade sobre o assunto e no final, olhado-o de frente, respondeu-lhe: Você nem parece um homem deste meio. É que não percbeu mínimamente a resposta do cavaleiro "X". Nunca lhe passou mínimamente que ele saiba na realidade que o cavalo possuí somente 4 patas?
O que ele lhe quis dizer, é que, cavaleiro e cavalo, são um só quando estão em praça e enfrentam o toiro. Se um deles mancar, manqueiam ambos.
É obvio que o famoso jornalista enfiou a viola no saco e foi tocar para outra freguezia...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ah... e tal

Mordem-me nos lábios
As palavras por dizer
Sons sibilinos ou sábios
Sarcásticos ou afáveis
Que escondo entre dentes
Num claro enraivecer
Travestidos de amáveis
E… sempre, sempre, ardentes

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vou lá fora ver o tempo...

Neste tempo, em que olhamos o tempo
Sem tempo para dar ao tempo
Pensamos, que bom seria se o tempo,
nos desse tempo, que não se gastasse com o tempo.

Mas o tempo foge-nos no tempo
E deixa-nos sempre sem tempo
Pois um dia, chegará o tempo
Em que nos sobrará o tempo

E, quando não nos faltar o tempo
E olharmos para trás no tempo
Vamos querer ganhar tempo
Vamos tentar enganar o tempo

Um dia que encontre o tempo
para deixar este tempo
Vou lembrar-me d'aquele tempo
Em que brincava com o tempo

O Sabor da Terra...

Sabe-me a fogo e a brumas
Ao amargo profundo de ruturas
Que se elevam p'las fendas
Que se espalham nas planuras

Sabe-me a desejo de grandura
A sede, a fome, e a ternura
Quando dela se nota a brandura
Quando ela é toda, completa formusura

Sabe-me a terra a suor
Ou a vento e descampado
Mas sabe-me muito melhor
Se a saboreio ao teu lado

Sabe-me a terra a magia
Quando a seguir à chuvada
Quando o verde se anima
Quando a noto fecundada

Sabe-me a terra a orgulho
com laivos de admiração
Quando nela as mãos mergulho
Quando dela extraio o pão