Um certo toureiro da nossa praça, que já conhecera altos momentos de glória, começou inexplicávelmente a ter más actuações. A crítica, implacável, apontáva-lhe impiedosa diversos defeitos, os quais seriam a causa dos últimos insucessos.
Um dia, ao terminar mais uma actuação sem grande valor reconhecido, foi abordado por um jornalista "expert" em matéria de tauromaquia.
O jornalista abordou de imediato o tema das fracas actuações, sugerindo que o toureiro avançasse uma explicação para o facto, mas antes de obter uma resposta, adiantou logo uma observação pessoal: «será que o facto de o seu cavalo coxear, pode ser o motivo de uma lide tão fraca ?»
-Sim, realmente o cavalo está ligeiramente côxo de uma pata, mas manqueia das outras cinco!
A resposta foi alvo de chacota durante algum tempo, no meio taurino.
Passado algum tempo este cavaleiro retirou-se das praças e dos espectáculos, dedicando-se exclusivamente à ganadaria e à criação e treino de cavalos.
Numa outra entrevista a outro toureiro de renome, o mesmo jornalista, feliz pelo sucesso que obtivera relembrou sarcásticamente e com muito ênfase o caso do cavaleiro passado.
Este que estava a ser entrevistado na altura e em directo, deixou-o exuberar à vontade sobre o assunto e no final, olhado-o de frente, respondeu-lhe: Você nem parece um homem deste meio. É que não percbeu mínimamente a resposta do cavaleiro "X". Nunca lhe passou mínimamente que ele saiba na realidade que o cavalo possuí somente 4 patas?
O que ele lhe quis dizer, é que, cavaleiro e cavalo, são um só quando estão em praça e enfrentam o toiro. Se um deles mancar, manqueiam ambos.
É obvio que o famoso jornalista enfiou a viola no saco e foi tocar para outra freguezia...
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Ah... e tal
Mordem-me nos lábios
As palavras por dizer
Sons sibilinos ou sábios
Sarcásticos ou afáveis
Que escondo entre dentes
Num claro enraivecer
Travestidos de amáveis
E… sempre, sempre, ardentes
As palavras por dizer
Sons sibilinos ou sábios
Sarcásticos ou afáveis
Que escondo entre dentes
Num claro enraivecer
Travestidos de amáveis
E… sempre, sempre, ardentes
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Vou lá fora ver o tempo...
Neste tempo, em que olhamos o tempo
Sem tempo para dar ao tempo
Pensamos, que bom seria se o tempo,
nos desse tempo, que não se gastasse com o tempo.
Mas o tempo foge-nos no tempo
E deixa-nos sempre sem tempo
Pois um dia, chegará o tempo
Em que nos sobrará o tempo
E, quando não nos faltar o tempo
E olharmos para trás no tempo
Vamos querer ganhar tempo
Vamos tentar enganar o tempo
Um dia que encontre o tempo
para deixar este tempo
Vou lembrar-me d'aquele tempo
Em que brincava com o tempo
Sem tempo para dar ao tempo
Pensamos, que bom seria se o tempo,
nos desse tempo, que não se gastasse com o tempo.
Mas o tempo foge-nos no tempo
E deixa-nos sempre sem tempo
Pois um dia, chegará o tempo
Em que nos sobrará o tempo
E, quando não nos faltar o tempo
E olharmos para trás no tempo
Vamos querer ganhar tempo
Vamos tentar enganar o tempo
Um dia que encontre o tempo
para deixar este tempo
Vou lembrar-me d'aquele tempo
Em que brincava com o tempo
O Sabor da Terra...
Sabe-me a fogo e a brumas
Ao amargo profundo de ruturas
Que se elevam p'las fendas
Que se espalham nas planuras
Sabe-me a desejo de grandura
A sede, a fome, e a ternura
Quando dela se nota a brandura
Quando ela é toda, completa formusura
Sabe-me a terra a suor
Ou a vento e descampado
Mas sabe-me muito melhor
Se a saboreio ao teu lado
Sabe-me a terra a magia
Quando a seguir à chuvada
Quando o verde se anima
Quando a noto fecundada
Sabe-me a terra a orgulho
com laivos de admiração
Quando nela as mãos mergulho
Quando dela extraio o pão
Ao amargo profundo de ruturas
Que se elevam p'las fendas
Que se espalham nas planuras
Sabe-me a desejo de grandura
A sede, a fome, e a ternura
Quando dela se nota a brandura
Quando ela é toda, completa formusura
Sabe-me a terra a suor
Ou a vento e descampado
Mas sabe-me muito melhor
Se a saboreio ao teu lado
Sabe-me a terra a magia
Quando a seguir à chuvada
Quando o verde se anima
Quando a noto fecundada
Sabe-me a terra a orgulho
com laivos de admiração
Quando nela as mãos mergulho
Quando dela extraio o pão
sábado, 24 de outubro de 2009
Vou...
Vou, percorrendo infinitos
Voando nas asas de um sonho.
Soletrando antigos desejos.
Em cada amanhecer, risonho
Vou, cavalgando ilusões
Buscando amanhãs vindos de ontem
Apagando as torpes negações
Ateando ainda, as chamas que me lambem
Vou, de olhar fixo na lonjura
Perdendo a noção do que é real
Espraiando-me por inteiro na planura
Da magia de uma aurora boreal.
Voando nas asas de um sonho.
Soletrando antigos desejos.
Em cada amanhecer, risonho
Vou, cavalgando ilusões
Buscando amanhãs vindos de ontem
Apagando as torpes negações
Ateando ainda, as chamas que me lambem
Vou, de olhar fixo na lonjura
Perdendo a noção do que é real
Espraiando-me por inteiro na planura
Da magia de uma aurora boreal.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Azulejos pequeninos
Naquele dia, passei o almoço alheio ao que se passava à mesa, buscando incessantemente o olhar de Izilda, sempre que ela entrava na sala de jantar, transportando bandejas de servir.
Imperturbável, Izilda prestava unicamente atenção aos sinais que a Senhora lhe fazia e mesmo quando me servia, olhava unicamente para os alimentos e nunca para mim.
Foi com imensa dificuldade que acabei a refeição e, acabrunhado recolhi ao meu quarto para a famigerada sesta.
Deitado sobre a cama, de mãos entrelaçadas por trás da cabeça, olhava o tecto abstraídamente, enquanto considerava a hipótese de Izilda se ter zangado, ou de se achar envergonhada, ou mais uma infinidade de outros motivos, para não ter correspondido ao meu olhar durante a duração do almoço.
Naquele dia, o tempo cornometrado da sesta passou sem se notar.
Voltei a tomar consciência dele, quando senti um leve bater na porta do quarto e em seguida apareceu a cabeça loura e a face rosada de Izilda.
- A Senhora pergunta se não vai descer à sala?
- Izilda, podes entrar... quero perguntar-te uma coisa.
- Diga menino...
- Não me trates por menino, sabes o meu nome.
Calou-se e ficou à espera da minha pergunta.
- Quero perguntar-te, porque não olhaste para mim durante o almoço?
- Então, porque estava a trabalhar e a Senhora não permite que me distraia quando estou a servir à mesa, para não cometer nenhum erro. Se o fizer, ela ralha-me.
Naquele momento senti-me envergonhado e ridículo. Era evidente, Izilda estáva certa, não podia distraír-se.
-Ah... está bem, desculpa-me.
- Desculpo o quê, menino?
-Já te pedi para não me tratares por menino. Desculpa, porque pensei que estivesses zangada comigo.
-Zangada porquê, men... Bartolomeu?
Sorri porque finalmente chamou o meu nome.
- Por causa do beijinho...
Sorriu tambem e chegando-se mais a mim, saracoteando ligeiramente as ancas, perguntou: - Gostaste?
Não me deu tempo para responder, colocando uma mão de cada lado do meu rosto, voltou a tocar os seus lábios nos meus, demorando um pouco mais aquele beijo que o anterior no jardim. Depois afastou o rosto sem retirar as mãos, olhou-me e sorriu, um sorriso doce e provocador que não entendi perfeitamente, em seguida aproximou de novo a boca da minha e voltou a beijar, desta vez, mexendo os lábios e tocando com a sua lingua nos meus. Instintivamente abri a boca e recebi a lingua dela dentro da minha. Invadiu-me naquele momento uma sensação indefinível de desejo e de nervoso, uma sensação que me fazia desejar algo que não conseguia identificar, algo que não sabia onde estava, nem o que era.
Izilda prolongou aquele beijo e senti a sua respiração ofegante e quente, senti o seu corpo espalmar-se contra o meu e senti aturdidamente a rijeza dos seus seios contra o meu peito, senti uma vontade imensa de os segurar, de os sentir nas minhas mãos, acho que até desejei beija-los.
Quando levantei as mãos tentando alcançar os seios de Izilda, senti-a desprender-se repentinamente de mim e soltar um risinho nervoso e brincalhão de menina ladina que acaba de cometer uma traquinice. E, em biquinhos de pés, dirigiu-se saltitante até à porta, depois, apontou-me o indicador e avisou-me: - Despacha-te, a Senhora está à tua espera, para irem saír.
...
Imperturbável, Izilda prestava unicamente atenção aos sinais que a Senhora lhe fazia e mesmo quando me servia, olhava unicamente para os alimentos e nunca para mim.
Foi com imensa dificuldade que acabei a refeição e, acabrunhado recolhi ao meu quarto para a famigerada sesta.
Deitado sobre a cama, de mãos entrelaçadas por trás da cabeça, olhava o tecto abstraídamente, enquanto considerava a hipótese de Izilda se ter zangado, ou de se achar envergonhada, ou mais uma infinidade de outros motivos, para não ter correspondido ao meu olhar durante a duração do almoço.
Naquele dia, o tempo cornometrado da sesta passou sem se notar.
Voltei a tomar consciência dele, quando senti um leve bater na porta do quarto e em seguida apareceu a cabeça loura e a face rosada de Izilda.
- A Senhora pergunta se não vai descer à sala?
- Izilda, podes entrar... quero perguntar-te uma coisa.
- Diga menino...
- Não me trates por menino, sabes o meu nome.
Calou-se e ficou à espera da minha pergunta.
- Quero perguntar-te, porque não olhaste para mim durante o almoço?
- Então, porque estava a trabalhar e a Senhora não permite que me distraia quando estou a servir à mesa, para não cometer nenhum erro. Se o fizer, ela ralha-me.
Naquele momento senti-me envergonhado e ridículo. Era evidente, Izilda estáva certa, não podia distraír-se.
-Ah... está bem, desculpa-me.
- Desculpo o quê, menino?
-Já te pedi para não me tratares por menino. Desculpa, porque pensei que estivesses zangada comigo.
-Zangada porquê, men... Bartolomeu?
Sorri porque finalmente chamou o meu nome.
- Por causa do beijinho...
Sorriu tambem e chegando-se mais a mim, saracoteando ligeiramente as ancas, perguntou: - Gostaste?
Não me deu tempo para responder, colocando uma mão de cada lado do meu rosto, voltou a tocar os seus lábios nos meus, demorando um pouco mais aquele beijo que o anterior no jardim. Depois afastou o rosto sem retirar as mãos, olhou-me e sorriu, um sorriso doce e provocador que não entendi perfeitamente, em seguida aproximou de novo a boca da minha e voltou a beijar, desta vez, mexendo os lábios e tocando com a sua lingua nos meus. Instintivamente abri a boca e recebi a lingua dela dentro da minha. Invadiu-me naquele momento uma sensação indefinível de desejo e de nervoso, uma sensação que me fazia desejar algo que não conseguia identificar, algo que não sabia onde estava, nem o que era.
Izilda prolongou aquele beijo e senti a sua respiração ofegante e quente, senti o seu corpo espalmar-se contra o meu e senti aturdidamente a rijeza dos seus seios contra o meu peito, senti uma vontade imensa de os segurar, de os sentir nas minhas mãos, acho que até desejei beija-los.
Quando levantei as mãos tentando alcançar os seios de Izilda, senti-a desprender-se repentinamente de mim e soltar um risinho nervoso e brincalhão de menina ladina que acaba de cometer uma traquinice. E, em biquinhos de pés, dirigiu-se saltitante até à porta, depois, apontou-me o indicador e avisou-me: - Despacha-te, a Senhora está à tua espera, para irem saír.
...
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Azulejos pequeninos
As manhãs, no casarão do Minho, passavam menos opressivas que as tardes, porém, ainda monótonas.
Inavariávelmente, após o pequeno almoço e a determinação das tarefas diárias, a Senhora esgueirava-se por um corredor que, descobri depois, conduzia a uma pequena capela adjacente à casa.
Ali permanecia em meditação e oração durante quase toda a manhã.
Durante esse tempo, saía para o jardim da casa e dava a liberdade possível à irrequietude dos meus 10 anos, explorando os recantos bucólicos do jardim e observando as aves exóticas que habitávam uma gaiola com tamanho de casa de arrumos, toda em pedra granìtica, telhado e uma frontaria em rede metálica, que permitia observar os movimentos dos faisões reais, das araras, e de mais uma quantidade de outras. Por trás da casa dos pássaros, corria um regato, que terminava num pequeno lago, onde me entretinha a colocar paus que imaginava barcos, a descer a corrente, promovendo corridas e passando assim o tempo de férias que decorria enfadonho.
Na manhã seguinte ao incidente da jarra partida, quando me achava sentado sob um carramachão em frente da casa dos pássaros, entretido a observar as aves exóticas, apreceu, vinda do fundo do jardim, Izilda.
Vinha com um ar envergonhado e andar indeciso, fingindo que prestava atenção aos canteiros de flores que ladeavam o caminho em calçada de granito.
Quando chegou a dois passos de mim, parou e, com os olhos colados ao chão e algum rubor nas faces, disse-me: - Obrigada por me ter salvo ontem.
- Fiquei parado a olhar para ela, sentindo-me um Don Quixote que terá salvo das mãos do gigante a sua doce Dolcineia.
- Não precisas agradecer nada, respondi-lhe, eu tambem não gosto da velha, nem da casa, nem da cozinheira, nem do Senhor... so gosto dos pássaros.
E rimo-nos os dois do final da minha resposta.
Izilda aproximou-se um pouco mais e perguntou-me: E de mim, não gostas?
Hesitei por momentos, sentindo o arrepio que a pergunta causou em mim e meio à toa respondi: - Gosto, claro que gosto, e até gosto mais de ti, que dos pássaros.
Voltámos a rir-nos da resposta.
Quando parámos de rir, Izilda sentou-se no banco ao meu lado e perguntou-me:
- Já alguma vez beijaste uma rapariga?
Novo arrepio percorreu-me o corpo e nova resposta hesitante surgiu: - ...já!
- Na boca?
- Na boca, não!
Sem mais perguntas, Izilda aproximou o seu rosto do meu e encostou aos meus os seus lábios, colocando neles um terno beijo.
Em seguida, levantou-se rápidamente e voltou-se para o caminho por onde tinha surgido.
Chamei-a.
Sem parar, avisou: - Tenho de ir já, senão a Jenoveva vem à minha procura.
-Espera, quero falar contigo.
- Depois!
Sentei-me de novo do banco, fiquei longos momentos a tentar perceber o que tinha acontecido durante aqueles breves instantes em que Izilda esteve junto de mim.
Depois, notei com surpreza que as aves tinham interrompido o seu natural e constante cacarejar. Depois, em sobressalto pensei se teria ficado surdo durante aquele tempo!?
...
Inavariávelmente, após o pequeno almoço e a determinação das tarefas diárias, a Senhora esgueirava-se por um corredor que, descobri depois, conduzia a uma pequena capela adjacente à casa.
Ali permanecia em meditação e oração durante quase toda a manhã.
Durante esse tempo, saía para o jardim da casa e dava a liberdade possível à irrequietude dos meus 10 anos, explorando os recantos bucólicos do jardim e observando as aves exóticas que habitávam uma gaiola com tamanho de casa de arrumos, toda em pedra granìtica, telhado e uma frontaria em rede metálica, que permitia observar os movimentos dos faisões reais, das araras, e de mais uma quantidade de outras. Por trás da casa dos pássaros, corria um regato, que terminava num pequeno lago, onde me entretinha a colocar paus que imaginava barcos, a descer a corrente, promovendo corridas e passando assim o tempo de férias que decorria enfadonho.
Na manhã seguinte ao incidente da jarra partida, quando me achava sentado sob um carramachão em frente da casa dos pássaros, entretido a observar as aves exóticas, apreceu, vinda do fundo do jardim, Izilda.
Vinha com um ar envergonhado e andar indeciso, fingindo que prestava atenção aos canteiros de flores que ladeavam o caminho em calçada de granito.
Quando chegou a dois passos de mim, parou e, com os olhos colados ao chão e algum rubor nas faces, disse-me: - Obrigada por me ter salvo ontem.
- Fiquei parado a olhar para ela, sentindo-me um Don Quixote que terá salvo das mãos do gigante a sua doce Dolcineia.
- Não precisas agradecer nada, respondi-lhe, eu tambem não gosto da velha, nem da casa, nem da cozinheira, nem do Senhor... so gosto dos pássaros.
E rimo-nos os dois do final da minha resposta.
Izilda aproximou-se um pouco mais e perguntou-me: E de mim, não gostas?
Hesitei por momentos, sentindo o arrepio que a pergunta causou em mim e meio à toa respondi: - Gosto, claro que gosto, e até gosto mais de ti, que dos pássaros.
Voltámos a rir-nos da resposta.
Quando parámos de rir, Izilda sentou-se no banco ao meu lado e perguntou-me:
- Já alguma vez beijaste uma rapariga?
Novo arrepio percorreu-me o corpo e nova resposta hesitante surgiu: - ...já!
- Na boca?
- Na boca, não!
Sem mais perguntas, Izilda aproximou o seu rosto do meu e encostou aos meus os seus lábios, colocando neles um terno beijo.
Em seguida, levantou-se rápidamente e voltou-se para o caminho por onde tinha surgido.
Chamei-a.
Sem parar, avisou: - Tenho de ir já, senão a Jenoveva vem à minha procura.
-Espera, quero falar contigo.
- Depois!
Sentei-me de novo do banco, fiquei longos momentos a tentar perceber o que tinha acontecido durante aqueles breves instantes em que Izilda esteve junto de mim.
Depois, notei com surpreza que as aves tinham interrompido o seu natural e constante cacarejar. Depois, em sobressalto pensei se teria ficado surdo durante aquele tempo!?
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