É verdade. Acabaram hoje. Amanhã, retomo a labuta diária e consequentemente os horários e os rituais pré-programados.
Este ano decidi gozar os dias de férias de uma assentada, sem contudo programar préviamente o que ira fazer durante todo o tempo.
Comecei por tentar dormir mais um pouco para além da hora habitual de me levantar, foi contudo um esforço que não resultou, ao segundo dia desisti deste intento. Depois pensei se iria uns dias à praia, não, ha outras coisas melhores para fazer do que esticar o corpinho ao sol, suar as estopinhas e dar mergulhos forçados, para tentar enganar o calor que sobrevem imediatamente a sair-se do molho, isto sem contar com as filas de trânsito e as dificuldades para estacionar.
Ao quarto dia, decidi como já fiz em outras ocasiões, zarpar sem rumo definido, ou seja, sempre para norte. É deste modo, meus amigos, que ainda consigo encontrar e saborear o verdadeiro sentido de liberdade.
Percorri as serras do parque natural do gerêz, do soajo e do lindoso, embriaguei-me de verde, de amplitude e de silêncio. Dormi em camas estranhas mas acolhedoras, em quartos de residênciais, saboreei os paladares de comidas genuínas em restaurantes de estrada, muitos deles só encontrados por indicação dos naturais do local. O único devaneio enquanto permaneci no país, foi um almoço de marisco regado por um fabuloso verde da região no "pedra alta", perto de Viana. Conheci gente, muita gente, conheci algumas das suas preocupações e necessidades, conheci a força de vontade daquela gente que nas serranias ainda tira da terra, à força de braço, o sustento que os mantem.
Depois saltei para espanha. Santiago de Compostela, visitei o santo caminhante. Decorriam festejos e uma feira medieval. Tendas de comes e bebes, artesanato, produtos naturais e, no ar, aquela sensação que não se consegue definir, resultante da permissão de partilha entre o religioso e o profano. Evidente em diferentes contextos a cultura celta que os galegos zelosamente mantêm, do mesmo modo que fazem com os monumentos.
Depois, percorri toda a orla marítima, detendo-me nas esplanadas das praias, todas elas limpas, de fácil estacionamento, e com um ambiente calmo.
Quando voltei a saltar cá para o rectângulo, fiz uma directa até à Inbícta, onde me assaltou uma buntade imensa de "comer" uma fráncezinha. E lá fui até ao kapas.
No Puorto, não vou em tangas de ficar nas residênciais, isséquera, nem pensar. Fiquei uma noite no Batalha e na noite seguinte dei o salto para Gaia. A propósito... sabíeis que na cultura ameríndia, Gaia é o nome da deusa-Mãe, ou deusa-Terra? Ah pezé...
Bom, mas andava aqui o cromo a vagabundear pelo cais de Gaia e quando olhou para os barquinhos de passeio, lembrou-se assim de repentinha... e seu embarcasse?
Entrei num barzinho para beber qualquer coisa e deparo-me com uma mocinha atrás do balcão. De resto, mais ninguem, absoluto deserto. Pergunto: vai fechar?
Com um sorriso aberto, como acho que só no nuorte se consegue encontrar, respondeu-me. - Ainda nãoe, só de madrugada.
Sentei-me, pedi uma bebida e tagarelei com a simpatia da moça.
Até que me voltei a lembrar do passeio de barco e tirei com a mocinha, nabos da púcara. Explicou-me tudo. Que havia vários itinerários, barcos maiores e mais pequenos, passeios mais curtos e mais longos, mas que na opinõe dela, qualquer um valia a pena.
-A sua descrição conquistou-me, devia ter-me lembrado de fazer uma reserva.
-Talvez não seja preciso, esteja aqui no cais amanhã pelas 8horas e fale com a senhora da agência que vai lá estar, se não tiverem os lugares esgotados, pode embarcar e fazer o passeio.
E assim foi, no dia seguinte lá estava o "je" a fazer olhinhos à menina, convencido que iria ter de empregar a técnica do charme para conseguir o lugarzinho, a verdade porem é que a lotação estava pelo metade e sobravam muitos lugares. O barcucho era o "Douro Azul". Na cave, encontravam-se as instalações sanitárias, no rés do chão (ou seria da água?) o salão de refeições, para onde me convidaram a entrar de imediato e a tomar um petit dejeuner, que... foi mesmo muito petit. Adiante... No primeiro andar, encontrava-se o terraço, onde actuava a banda que acompanha o programa televisivo do Gôxa, o Praça da Alegria e de onde, durante todo o passeio, se admira a extraordinária paisagem das margens do Douro. Tocavam o tema velhinho da série "Barco do Amor". Fui até ao Peso da Régua e voltei ao Puorto, estaçõe de São Bento, de cumboio. Foi giro!