sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Confissão/Contricção

Confesso: Que as minhas(eus) leitoras(es) me assediam. Confesso-me vítima dos seus tresloucados desejos lidibinosos, que me coagem a escrever sobre matérias contra as quais a minha integridade moral, luta desesperadamente. Confesso ainda que apesar do meu esforço para escrever aquilo a que sou impelido, de modo a não ferir a suscepibilidade daqueles (as) que como eu se desejam preservar dos efeitos da ignomínia, tentando utilizar termos e expressões dissimuladoras de uma nudez árida vocabolar, verifico infrutífero e inócuo o meu esforço.
Contricção: Seguindo a máxima popular, que "ferida de cão, deve ser tratada com pelo do mesmo cão", vou reiniciar o cíclo intitulado "A Minha Balbina". Aproveito para avisar aquelas(es) mais sensíveis, que este ciclo irá priveligiar a boçalidade e roçar a obscenidade, senão mesmo, utilizá-la ostensivamente.
Para que ninguem seja tomado de surpreza, deixo a seguir uma lista de termos por ordem analfabética, que irão surgir com maior frequência nos próximos capítulos...
Amâncio a menina (se for capaz)
Baxatagora
Camóca prá sossega
Dá-me dá-me
Eras má boa có queu imanginába
Fazia-te um desenho britual
Gajas ò phedere
Hoji onti e amanhain
Inda um dia abemos de cumbressar
Já agora, mostra lá
Kilo qui tu queres, sei eu bain
Logo douti mais
Molha a ponta neste geli
Novembro é o mês das pulgas
Olvira anda cá ò padraste
Porca pró meu parafuso
Querias, mas tá de chuva
Roscas & canapés
Sopra sopra, chupa chupa
Todos juntos, cada vez sames menos
Ui ca pesadelo, parecia a melher do mê vezinho
Vira agora Mincalina
Xabes o que te digo?
Yngaldades mesicais
Zorzidelas calientes
Pensaram que não conhecia o analfabeto?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Debulha...

Como prometi, venho à eira a fim de debulhar o preconceito.
Declaro-me seguidor incondicional da entre-ajuda comunitária, para quem ainda não se livrou de preconceitos e possa estar a conectar esta minha afirmação com uma qualquer ligação política, ou corrente filosófica, esclareço que sou apolítico e as correntes filosóficas a que me acho filiado, são primorosamente privadas e fruto das experiências que a vida me tem proporcionado.
Antes de continuar a debulha, quero convidar todas e todos que (ainda ) lêem aquilo que escrevo, a sentarem-se aqui na eira e a participarem na debulha do preconceito.
Para nos focalizarmos na tarefa proposta, vou apresentar-lhes a matéria a debulhar. Preconceito é um substantivo masculino com o(s) seguinte(s) significado(s): conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério; superstição; prejuízo; erro.
Este conceito, que ainda rege a vidinha de muita gente, pode dizer-se que imprime condicionalismos fortíssimos no âmbito da auto-determinação e da auto-estima de quem ainda não "aprendeu" a domina-lo. Uma vez que, pessoalmente não acredito na possibilidade de alguém conseguir viver em sociedade sem que esteja sujeito, mesmo que minimamente, directa ou indirectamente aos efeitos deste agente.
Mas, há ainda um conceito adjacente ao preconceito, não sei se mais limitador que o próprio preconceito e que eu designo por fermento do preconceito. Consiste este, em empolar e fazer proliferer o preconceito, ajudar a que se desenvolva e estenda raizes, tentando a todo o custo que essas raízes abranjam uma área, passo a passo, mais vasta.
Há efectivamente quem viva tão dependente do preconceito, que tenta a todo o custo alimentá-lo e fomentar a sua proliferação.
Há ainda aqueles que, achando-se num meio hostil ao uso do preconceito, auto-martirizam-se com a sua utilização compulsiva, colocando sempre em terceiros a "culpa" por serem vítimas desses preconceito.
Preguntar-me-heis certamente, de que forma poderemos combater com eficácia o preconceito, uma vez que se lhe reconhece a acção limitativa ao direito de cada um se expressar com a liberdade que lhe é devida?
Diz um fulano pensador, daqueles que dizem coisas que são fruto de reflexões acerca daquilo que observam, que um povo precisa de se saber respeitar, par que seja respeitado, e que, para que nos saibamos respeitar, é fundamental que nos conheçamos.
Esta, parece-me ser uma dica bastante concisa e pertinente. Se nos soubermos observar, se conseguirmos resistir ao preconceito e nos auto-conhecermos, passaremos a aceitar-nos e a respeitar-mo-nos da forma natural como somos. Sem etiquetas, sem espartilhos, sem pensamentos pré-concebidos por moralismos que se fundamentaram em vivências, épocas, locais e conjunturas diferentes. É importante sermos capazes de olhar para a nossa vida e para a de todos os que nos rodeiam e sermos capazes de vislumbrar tudo aquilo que pode constituir a felicidade e sobrepor-se ao preconceito. Pessoalmente, interpreto a vida como um monumental "puzzle" (do Mordillo, por vezes), onde só é possível encaixar uma peça, naquela peça e só naquela, e em mais nenhuma outra. Portanto, inventar aquilo que já existe, ou tentar trocar-lhe o sentido, usando o preconceito, limita a possibilidade de se avançar.
Avancemos...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A minha Balbina III

É então chegado o momento de introduzir neste conto o trovador Anus Rosado, que, chegado recentemente de Pirilaulândia (um estado brasileiro), canta em poesia os sentires da belíssima Braclané. Assim, dedilhando o seu alaúde, Anus Rosado, transporta-nos nesta melodia à ambiência dos filmes indianos da década de 70, em que os actores principais, interrompiam a representação dramática, interpretando musicalmente um tema empolgadíssimo, entoado num registo de Heidi nas montanhas da Suiça, quando andava à procura do Pedro e ele se escondia no meio das cabrinhas... muito agarradinho a elas... por trás, segurando-lhes o pêlo com força... para aquecer as mãozinhas... isso... pois...


Palpita louco de amor
o coração de Braclané
Pelo olhar de seu senhor
Óscar Alho, que ali defronte está em pé

Abraçá-lo é o seu grande desejo
Correr para ele, lançar-se-lhe nos braços
Beber avidamente todos os seus beijos
Descobrir-lhe no corpo os inchaços

Afagar seu cabelos anelados
Beijar seus doces olhos, suas mãos
Segurar-lhe os membros já melados
De toda a essência que lhe brota da paixão

Desfalecer em incontível arquejo
De o ter todo em si eternamente
De ser sua totalmente e num lampejo
Percorrer o espaço, qual estrela cadente

E assim corre de Braclané o pensamento
Enquanto vê seu amado passar pela rua
Deixando descair sua mão por um momento
Até ao ventre, afagando sua pele já nua

Mil sensações lhe invadem os sentidos
Quando os dedos lhe tocam a intimidade
E entre suspiros e agitados gemidos
Estremece-lhe o ventre de tanta ansiedade

Sem que Braclané tivesse presentido, Bela Racha assiste silenciosa, num canto recôndito do quarto, ao desenrolar de todos estes acontecimentos...
(suspeito que o próximo capítulo vá incendiar as folhas do bilogue... hum... hum)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A minha Balbina II

Cresce feliz, alegre e saudável a pequena Braclané. Não podemos afirmar que a sua infância tenha sido igual à de outras crianças da sua idade e do seu tempo. Foi certamente criada com a máxima dedicação e muito amor. Estes privilégios não lhe foram prodigalizados pelos progenitores, que devido aos acasos da vida, não teve possibilidade de conhecer. Foram, outrossim, as rameiras do bordel onde foi recolhida, como se de convento se tratasse, que lhe dedicaram as atenções e carinhos necessários ao seu saudável crescimento físico e espiritual. Espiritual, sim! Porquê esse vosso ar de pasmo? Para que saibam, as pupilas de mm Balbina, esmeravam-se na educação e acompanhamento da pequena Braclané. Logo que ela cresceu o suficiente para entender as "coisas" superiores da vida, empenharam-se em que a pequena Braclané, conhecesse todos os meandros escuros que neste mundo a poderiam tomar de surpresa. Mostraram-lhe com exemplos práticos, tudo aquilo que para bem de si mesma deveria evitar, assim como o que poderia servir-lhe e tornar-se-lhe útil. Foi o bordel de de mm Balbina, uma universidade de todas as ciências para a pequena Braclané.
Porém, com o passar do tempo, Braclané foi crescendo e os seus sentidos, foram naturalmente despontando para o amor.
Certo dia, com a idade de 15 anos, quando passeava no jardim público acompanhada de duas cortesãs do bordel, o seu olhar cruzou-se com um olhar penetrante, simultâneamente doce e meigo de um belo rapaz louro que ela já tinha observado anteriormente por trás das cortinas da janela, que garantiam o recato e a penumbra do seu quarto. Eram uns olhos grandes, azuis, expressivos, enquadrados num rosto singularmente belo e másculo, que lhe recordou de imediato a figura de um deus grego que vira gravada numa página de um livro que o Sr. Conde de Monte a Nelas, seu protector, lhe havia oferecido.
Aquela visão tão fugaz, foi o suficiente para que durante toda a noite, o belo rosto do rapaz, não lhe saísse do pensamento. No dia seguinte, logo pela manha, Braclané levantou-se e imediatamente se foi colocar por trás dos cortinados da janela, na esperança de a todo o momento avistar a silhueta daquele que passou a ser a sua razão de existir.
Passado algum tempo, quando uma das serviçais do bordel a chamou para descer à sala de jantar, porque estava servido o desjejum, já Braclané só se encontrava em corpo naquele quarto, o seu olhar, atribuladamente buscava por entre os transeuntes o olhar magicamente magnético daquele que lhe furtara o sono durante a noite anterior.
Como não respondesse ao seu chamado, a serviçal de seu nome Bela Racha Berta, conhecida no bordel por Bela Racha, aproximou-se de Braclané e despertou-a daquele sonho, tocando-lhe no braço. Lentamente Braclané voltou o rosto na direcção da Bela Racha, indagando o que queria. -Vossa madrinha, mm Balbina, mandou avisar que está servido o pequeno almoço menina.
- Vai e diz a minha madrinha que não vou descer, falta-me o apetite.
- Mas, está doente menina?
- Não! Simplesmente não tenho vontade, vai e diz isso a minha madrinha.
Nesse momento, como que por magia, passa defronte à janela de Braclané o deus loiro, lenta e majestosamente. O sol da manhã faz dourar ainda mais os seus cabelos encaracolados, transformando a sua figura em algo grandioso, quase irreal.
Braclané, sente de súbito que as forças a abandonam e que os seus joelhos tremem de fraqueza. A serviçal, vendo que Braclané está prestes a desmaiar, apressa-se a segura-la, encostando-a a si, abanando-lhe para o rosto com a mão.
- Então menina, não se está a sentir bem?
- Já passa Bela Racha, foi uma indisposição ligeira.
Mas a aflição com que voltou para junto da janela atraiçoou-lhe o disfarce, dando a perceber à serviçal, a origem do leve desmaio.
Com um olhar maroto, Bela Racha deu a entender que tinha percebido tudo e Braclané, incapaz de disfarçar o seu desatino pediu-lhe que não contasse nada do que se tinha passado a sua madrinha. A serviçal prometeu que nada diria e logo ali se estabeleceu uma cumplicidade entre ambas.
Já mais confiante, Braclané ousou perguntar à sua amiga Bela Racha, se conhecia o garboso rapaz louro que se detinha em frente à sua janela.
- Conheço muito bem menina, é o menino Óscar Alho do Rego, filho do Senhor Barão Jacinto Leite Capelo Rego, habitam um palácio situado ao princípio desta rua.

A minha Balbina

Nunca escrevo "por encomenda", mas seduziu-me o tema proposto pela minha amiga Sirk. Assim, dei início, não em verso (para já) àquilo que poderá muito bem vir a ser o guião da novela portuguesa com o nome do título... ou ... com o título do nome?
Avancemos então...
Branca Clara Alva das Neves, foi abandonada à nascença, à porta de um prostíbulo numa fria noite de Dezembro. Decorria o ano 1850. Quem cometeu o terrível acto de abandono, premeditou que aquela seria a hora de maior afluência ao local, pelo que, provavelmente não demoraria a ser encontrada. Efectivamente Branca das Neves, foi encontrada por um distinto senhor que visitava regularmente a casa de madame Balbina, no preciso momento em que as suas cordas vocais iniciaram um estrepitoso choro. Quando madame Balbina, mulher garbosa já entrada na idade mas ainda altiva, detentora de uma personalidade férrea e um auto-domínio, que os anos de experiência no "ramo" lhe conferiam, atendeu a porta, encontrou o seu cliente habitual pegando no colo protector a ternurenta bebé. Deu-se um momento de estupefacção e de indecisão, que fizeram mm Balbina ficar como que pregada à soleira da porta, de olhos muito abertos fitando, ora o Sr. Conde, ora a pequena criança.
-Então mm Balbina, vai querer que a pobre criança enregele? Permite-nos que entremos?
Como que acordada à força de um pesadelo, mm Balbina, afastou-se dando passagem ao Sr. Conde e à sua protegida.
- Mas Sr. Conde, pode explicar-me o que se está a passar?
Sem prestar atenção à pergunta formulada, o Conde de Monte a Nelas passou a entrada e sem deixar a pequena Branca, aliviou-se dos abafos que lhe mantinham o já velho corpo aquecido. Depois, chegando a pequena Clara á luz mortiça de um aplique de parede, perguntou como que afirmando, é linda, não é?
Mm Balbina, ainda insegura da situação, acercou-se um pouco mais e confirmou. Sim, de facto é uma linda bebé. Mas a quem pertence Sr. Conde?
Lentamente o velho conde virou-se para mm Balbina e, de olhar penetrante e arguto, concluiu.
-Esperava que fosse a senhora a esclarecer-me essa questão. Não será obra de alguma das suas “pupilas”?
-Não estou a perceber a lógica da sua dúvida senhor conde, pelo facto de nos encontrarmos numa casa de prostituição, não quer dizer que sejamos pessoas desumanas, capazes de abandonar uma recém-nascida a um destino tão desfavorável.
- Bom, assim sendo, crendo na veracidade das suas palavras, tenho a pedir-lhe um enorme favor.
- Se estiver ao meu alcance, pode estar certo que atenderei ao seu pedido Sr. Conde.
- Estará certamente, mm Balbina. Como poderá imaginar, ficar-lhe-ia muito grato se tomasse a seu cargo a responsabilidade de criar esta menina. Estou certo que lhe saberá proporcionar o conforto e educação apropriados. Para provir a todas as necessidades da pequena, providenciarei amanhã mesmo com o meu advogado, o usufruto de uma das minhas propriedades de Nelas, que será administrado por si e passará para a posse da menina, logo que ela atinja a maioridade.
- Perplexa, sem reacção mm Balbina, não ousa sequer contrariar a vontade do Sr. Conde. Chama imediatamente uma das meninas e ordena-lhe que recolha a bebé, lhe dê banho e procure com urgência uma ama que a amamente.
E assim se inicia a existência de Branca Clara Alva das Neves, que iremos mais adiante conhecer pelo diminutivo “Braclané”.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Epopeia

Já vejo solto o pano branco da barca nua que vogará pelo mundo.
Transporta no ventre herois imensos de tempos passados
De coragens desmedidas, de desígnios bem armados
Correm longe sobre os mares, buscando terras lá ao fundo

Sabendo gentes, conhecendo-lhes os habitos diferentes.
Ouvem-se os clamores das trombetas que anunciam a partida
Sentem-se as preces aflitas, dos que ficam dessas gentes.
Para que um dia, outras gentes, conhecendo outra lida

Esqueçam o rumo dessa barca e se percam pelo mundo de fugida
Guiando-se pelo sonho de um desejo, uma vontade desmedida
Que a conquista e a encoraja a proseguir buscando a vida
Numa renovada e sempre prepétua partida!!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Avançando...

Da visita ao blog do Rui Caetano, http://urbanidades-madeira.blogspot.com/ , surgiu a inspiração para este poema, que lhe dedico.


Fico feliz quando encontro
Companheiro de boa verve
Que solta, vinda de dentro
A palavra que lhe ferve

Que também trata por tu
As fortunas desta vida
E que não olha p'ró tempo
De chegada e de partida

Será que a vida é uma roda
Da qual somos os dentes?
Ou será que é tudo uma moda
De que estamos dependentes?

Entretanto, com razão,
Te digo meu caro amigo
Vamos andando pela mão
Sem olharmos p'ró umbigo

Ao chegar o fim da estrada
Sentiremos em consciência
Não descomandámos a roda
E vivemos com decência

Sem deixarmos de esperar
Pelo sol de amanhã
Tentemos sempre encontrar
A razão para tanto afã.

Avancemos...