sábado, 12 de maio de 2007

Verão

Era Verão...
E tu chegaste esvoaçante,
como uma ave emigrante,
que chega de país distante.

Era Verão...
E eu, qual galante,
insinuei-me vagamente,
perante o teu ar provocante.

Era Verão...
E o teu olhar cintilante,
a tua voz cativante,
o teu cabelo ondulante,
fizeram o meu coração errante,
disparar loucamente, alucinante.

Era Verão...
E o teu andar elegante,
gravou-se no meu, delirante,
E o teu falar empolgante,
geraram aquele amor escaldante.

Foi Verão...
E aquele amor gigante,
desfez-se num instante.
Quando voltaste hesitante,
para o teu país distante.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Tempos

Vivemos tempos em que é destruído o resto daquilo que foi construído.
A desorientação é geral, todos buscamos um caminho. Para nos animarmos nesta busca, criamos imagens irreais que perseguimos, fundamentadas num desejo apoiado em conceitos vãos.
Neste percurso, não deixamos obra que nos dignifique. Queremos ser mais, queremos ser tudo, desejamos possuir tudo, desejamos que tudo esteja submetido ao nosso querer.
Nestes tempos, desqualificam-se conceitos morais, sociais e humanos. Tudo sob uma capa de indiferença, porque nada diferente parece poder ser feito. É o ritmo alucinante que uma sociedade consumista se habituou a viver e para o qual não está a conseguir encontrar alternativa.
Na nossa capacidade limitada de visão, não nos é possível alcançar mais adiante, nem projectar para o futuro, o hoje está diáriamente mais difícil.
Nestes tempos, o objectivo de vida é possuir, mas possuir bens, não, valores, possuir objectos com uma vida útil limitada. Essa avidez pelo consumo gera uma crescente vontade de possuir para marcar a diferença.
Nestes tempos vive-se do faz-de-conta e do conceito de ilustre desconhecido, que imediatamente é tomado como um ícone social, pela marca de adereços que ostenta, pelos locais que frequenta, pelos circulos sociais em que se insere.
Quando são estes os valores que perdominam e que servem como tábua de mandamentos de uma sociedade, é certo que se vivem tempos de mudança.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Imagens

Escuto os choros do mundo.
Olho os corpos dos famintos,
dos doentes que lá do fundo,
me dirigem um olhar triste,
rogando uns nada já extintos,
sobras daquilo que não existe.

Choro com eles em silêncio,
reconheço-me na sua verdade.
Na pobreza que presencio.
Busco um tudo necessário,
que seja mais que bondade,
que ultrapasse o simples dar.
Algo de muito extraordinário.
Busco-lhes o ressuscitar.

De tão desumanas e chocantes,
Duvido cinicamente das notícias,
Da verdade inventada pelos homens.
A crueza das imagens distantes.
Da dor alheia que fere, lancinante,
O peito dos que a suportam.
Mas a quem só as palavras não confortam.
Impele-os uma força natural. Adiante!
E marcham, como formigas...
Carregando a culpa da existência... ultrajante.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Caminhando

Vou caminhando, sentindo o sol nas minhas costas. Fixo o olhar no horizonte, inebrio-me na lonjura da distância. Não busco por sinais, nem por respostas, vou simplesmente percorrendo o espaço. Não determino um tempo para chegar, não programei o tempo de partida. Não baixo, nem elevo a linha do olhar, não determino um ponto fixo no horizonte, não reconheço a fadiga dos meus passos. Vou andando, na esperança de sentir a passagem deste para um novo tempo.

terça-feira, 1 de maio de 2007

A culpa

-A culpa é tua...!
-Não. A ulpa é tua!
-Desculpa, a culpa é tua!
-Pediste-me desculpa, porque admites ser o culpado?
-Não, pedi desculpa pela insistência da minha afirmação.
-Mas admites que a culpa é tua?
-Não. Já disse que a culpa é tua!
-Irra! Com mil demónios. A culpa é tua!
-Volto a afirmar. A culpa é exclusiva e inteiramente tua!
-Estou a perder a paciência. Disse e repito; a... culpa... é... tua!
-Mas como é que podes afirmar que a culpa é minha?
-Obviamente, porque é lógico que assim seja. A culpa é tua!
-Vamos raciocinar; afinal, de que se culpado?
-Daquilo que estás a pretender culpar-me.
-Que é concretamente o quê?
-É...

sábado, 28 de abril de 2007

Ajo sem vergonha

Ajo, ponto por ponto, como um tonto
convencido que agindo deste modo,
com certeza, saberei com o que conto.
E eganar-me, não sucederá, de todo

Rio-me de mim próprio, sem pudor,
desta forma de certeza confirmada.
Convencido firmemente do valor,
daquilo que afinal, não vale nada.

Aos demais, brado com maior firmeza,
a tontice que me faz julgar maior,
Dando mostras, com toda a certeza,
que escutam, não um tolo, mas um doutor.

E todos me creem fácilmente,
seguindo a doutrina da mentira
Não sei se sou eu, ou esta gente,
que me dá este agir, ou que mo tira.


heheehe, hoje deu-me prá parvoeira

terça-feira, 24 de abril de 2007

A montanha de Sísifo

Vejo o medo, nos olhos de todos aqueles,
que como eu empurram montanha acima,
o penedo de Sísifo, persistentes, debeles,
indagando da vida o objectivo que a encima.

Os braços exaustos e o tronco desfeito,
mas a coragem remanesce a cada passo,
renasce a cada arquejo, dentro do peito.
Desfaz o corpo, aumenta o cansaço.

Da tontura, desejam construir o abraço.
Do desânimo, a constância, a força insana.
Dos musculos e tendões, forte baraço,
projectando toda a força que d'eles emana.

E voltam a erger a face, à rocha dura,
atacando novamente na subida.
Resignados/resistentes à catadura,
dos esforços titânicos desta vida.

Foi-lhes dito, garantido à nascença,
que toda a vida ganha um dia o seu final.
Descobriram logo cedo por experiência.
Que no meio fica um tempo adicional.